Caetana era o nome que Ariano Suassuna usava para se referir à morte, retratada pelo escritor ora como “moça”, ora como “onça”. Coincidentemente – ou, talvez, sugestionado por uma memória armorial inculcada em sua mente nordestina -, o pernambucano Lucas Barros escolheu chamar de Caetano o protagonista de “Amanhã Eu Morri Sozinho”, seu livro de estreia.
Embora o romance trate de diversos assuntos urgentes, como abandono paternal, gordofobia e homofobia, a morte é um elemento que se faz presente do começo ao fim da história. Publicada pela Editora Intrínseca, a obra de ficção será lançada no Recife nesta terça-feira (4), às 19h, em evento na Livraria Leitura do Shopping RioMar, com bate-papo seguido de sessão de autógrafos.
“Foi inevitável [escrever sobre a morte], porque esse é o tema que mais me interessa, por ser para mim o maior mistério da humanidade. Já tinha lido muitos livros sobre o assunto, mas nenhum que retratasse a tentativa de trazer a morte para perto de si, o que talvez seja uma forma de camuflar o medo dela”, conta Lucas Barros, em entrevista à Folha de Pernambuco.
Memórias revisitadas
Ao longo de 256 páginas, o livro acompanha o crescimento de um garoto do interior de Pernambuco. Criado apenas pela mãe, Caetano vê as consequências da ausência do pai se refletirem em diferentes facetas de sua vida, enquanto lida com aspectos ligados ao próprio corpo e a autodescoberta da sua sexualidade.
Embora não seja um livro autobiográfico, Lucas não esconde também ter recorrido a memórias pessoais para criar. “Acho muito difícil separar 100% o autor da obra, porque as nossas vivências influenciam total o que a gente está escrevendo”, reflete o escritor. Segundo ele, o aspecto que mais o aproxima de seu personagem é a relação com o território.
“A primeira parte do livro é ambientada em Garanhuns [no Agreste de Pernambuco], cidade onde um cresci e que foi muito responsável pela formação da minha identidade. Precisei revistar algumas lembranças da época de escola, pegando nuances de coisas que eu vivi e levando isso ao extremo por meio da ficção”, explica.
Romance LGBTQIAPN+
O mercado literário brasileiro vive um boom de romances LGBTQIAPN+ voltados para o público jovem adulto. Embora “Amanhã Eu Morri Sozinho” também trate de relacionamentos homoafetivos, seu autor adianta que a abordagem é bem diferente da que costuma aparecer nos títulos que estão fazendo sucesso entre os leitores.
“Embora eu ache o crescimento desses livros muito importantes, vejo que há muitas nuances de uma relação LGBTQIAPN+ que não são trabalhadas nesse tipo de literatura que está em alta. Creio que há coisas mais interessantes na complexidade de dois indivíduos compartilhando uma relação do que somente a sexualidade deles. Quero ser mais provocativo do que isso”, diz.
Do Instagram para os livros
Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Lucas Barros já tinha os livros como parte de rotina profissional antes mesmo de se tornar oficialmente um escritor. Somando mais de 500 mil seguidores em seus perfis no Instagram, TikTok e YouTube, o garanhuense produz conteúdo sobre literatura para a internet há cerca de seis anos.
Acostumado a gravar vídeos falando sobre livros e conversando com autores, Lucas agora vive a experiência de estar do outro lado. Em julho, ele esteve pela primeira vez como escritor na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, onde teve a oportunidade de falar sobre sua obra.
“Apesar de já ter o contato com as pessoas que me seguiam, é uma troca diferente. As pessoas veem o escritor como uma figura mais distante do que o influenciador. Ao mesmo tempo, acho que o autor tem o poder de acessar lugares mais íntimos com um livro do que um post no Instagram”, aponta.
Serviço:
Lançamento do livro “Amanhã Eu Morri Sozinho”, de Lucas Barros
Quando: nesta terça-feira (4), às 19h
Onde: Livraria Leitura do Shopping RioMar – Av. República do Líbano, Pina, Recife
Entrada gratuita
Informações: (81) 98219-3196
