O escritor e jornalista Mário Hélio tomou posse na última sexta-feira (31) como membro da Academia Paraibana de Letras, consolidando uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à produção literária, ao jornalismo cultural, à história e antropologia. Ele passa a ocupar a Cadeira nº 15 da instituição, sucedendo o artista Francisco Pereira da Silva Júnior. A cerimônia aconteceu no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa.
Eleito em abril deste ano, Mário Hélio chega à instituição máxima das letras da Paraíba depois de construir uma carreira reconhecida nacionalmente. Tendo desenvolvido a maior parte de sua atuação profissional e literária em Pernambuco, o escritor sempre manteve fortes relações com a cultura paraibana, tema que voltou ao centro de sua produção mais recente, “Mosaico Paraibano”, seleta de ensaios seus escritos nas últimas décadas sobre escritores, artistas e personalidades que ajudaram a construir a identidade cultural do estado. O livro foi lançado na própria Academia Paraibana de Letras pouco antes de sua eleição, fortalecendo o vínculo entre sua produção recente e a instituição que agora passa a integrar.
Trajetória
Nascido em 1965, em Sapé, na Zona da Mata paraibana, Mário Hélio iniciou precocemente sua vida literária. Antes mesmo de completar 20 anos de idade, venceu o Prêmio Literário Cidade do Recife na categoria poesia, que resultou na publicação de seu primeiro livro, Livrório/Opus Zero, lançado no ano seguinte, 1995. Desde então, sua obra expandiu-se para diferentes campos, reunindo poesia, ensaio, crítica literária e de arte, biografia, história cultural e antropologia.
Sua formação acadêmica acompanha essa diversidade. É graduado em Comunicação Social, mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco e doutor em Antropologia pela Universidade de Salamanca, na Espanha. Ao longo da carreira, também desenvolve atividades como professor e pesquisador e editor, dedicando-se especialmente às relações entre literatura, memória, religiosidade e cultura popular.
No jornalismo, Mário Hélio tornou-se uma das principais referências da imprensa cultural. Participou da criação e da consolidação de importantes publicações voltadas às artes e às humanidades, entre elas a revista Massangana, do MEC, as revistas Continente e Pernambuco, do governo de Pernambuco, reconhecidas nacionalmente pela qualidade editorial e pela cobertura da produção cultural contemporânea.
Também exerceu funções de administração pública na área da cultura. Foi diretor de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e, atualmente, ocupa o cargo de superintendente de Periódicos e Projetos Especiais da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), instituição responsável por uma das mais importantes políticas públicas de edição e difusão do livro no Nordeste.
Ao longo de sua produção intelectual, publicou dezenas de títulos que transitam entre a investigação histórica e a narrativa literária. Entre suas obras de maior repercussão estão “O Recife melhor do que Paris”, poema-retrato do Recife dos anos 80/90, e ainda todo atual; “Brasil Profundo, Espanha Negra”, resultado de sua pesquisa antropológica sobre manifestações religiosas populares; “Cícero Dias – Uma vida pela pintura”, dedicada ao artista pernambucano; e “A História Íntima de Gilberto Freyre”, considerado um dos mais profundos mergulhos na vida e obra do sociólogo.
Na leitura de sua obra, se encontram também estudos sobre escritores (como João Cabral de Melo Neto, de quem foi amigo), entre outros artistas e intelectuais brasileiros. São atuações sempre marcadas pelo rigor documental e linguagem acessível ao público. Essa característica fez de Mário Hélio um dos principais divulgadores da história cultural brasileira nas últimas décadas. Também participa de instituições nacionais e internacionais dedicadas à literatura, à pesquisa e à preservação da memória cultural.
Em 2023, foi eleito para a Academia Pernambucana de Letras. Na sexta passada, tornou-se um dos poucos escritores a integrar simultaneamente academias literárias de estados diferentes.
A eleição e posse de Mário Hélio foram recebidas por acadêmicos e pesquisadores como o reconhecimento de uma trajetória construída em diferentes frentes da vida intelectual. Recepcionado pelo acadêmico Francisco de Sales Gaudêncio, ocupante da Cadeira nº 18 da APL, Mário Hélio representa a aproximação histórica entre as tradições literárias da Paraíba e de Pernambuco. Ao longo do século XX, escritores, jornalistas e pesquisadores dos dois estados compartilharam projetos editoriais, revistas, movimentos culturais e instituições que contribuíram para consolidar o Nordeste como um dos principais polos de produção intelectual do país.
Discursos
Os dois discursos da cerimônia, convergem na defesa da literatura como vetor de permanência e construção da memória. No discurso de recepção, Sales Gaudêncio apresentou Mário Hélio como um intelectual cuja trajetória ultrapassa a produção literária para alcançar a pesquisa, o jornalismo e a preservação da cultura.
Ressaltou seu retorno à Paraíba como um reencontro com a própria origem e enfatizou a importância de instituições como a Academia Paraibana de Letras: “Entrar nesta Casa significa receber uma herança e assumir uma responsabilidade. Cada cadeira possui uma história, cada patrono representa uma tradição e cada acadêmico passa a integrar uma comunidade que não se limita ao presente. Aqui, convivem os vivos e os mortos; os que escrevem e os que deixaram de escrever, mas continuam falando por intermédio de suas obras.”
Enquanto Sales enfatizou a biografia do novo acadêmico como exemplo de dedicação à cultura, Mário Hélio deslocou o foco da homenagem pessoal para fazer uma evocação ao tempo, aos símbolos e à responsabilidade coletiva de quem passa a integrar uma academia: “Uma vez eleito, o neófito deve acatar as novas responsabilidades, em compromisso com a vida coletiva. Sem isto, entrar numa academia pouco mais será do que a conformação ou a confirmação de egos.”
