A noite sempre foi lugar de encontros, despedidas, desejos e reinvenções. É justamente desse universo que a Eddie parte para construir “Noturna”, seu 11º álbum de estúdio, que chega às plataformas de streaming neste domingo (2).
Depois de 37 anos de trajetória, a banda olindense transforma a maturidade em combustível criativo: amplia seu repertório estético, incorporando bolero, salsa e cumbia ao seu vocabulário musical, sem abrir mão da identidade “Original Olinda Style”, que é emblema da banda.
“O 11º álbum precisava realmente subir um pouco o sarrafo e tentar buscar outras coisas”, resume Fábio Trummer. Para o vocalista e principal compositor da Eddie, a criação continua sendo o motor da banda.
“Não faz sentido parar. A busca por algo novo é o que realiza a gente. Quanto mais domínio a gente tem, melhor, porque faz pensando no que vai satisfazer a gente. A ansiedade é descobrir se isso também vai satisfazer o público”, afirma.
A noite como horizonte
Embora o disco dialogue com temas como solidão, medo, paixão e fim de relacionamentos, “Noturna” não abandona a vocação celebratória que sempre definiu a Eddie.
A faixa-título abre o álbum com atmosfera de cabaré e um bolero de feições psicodélicas, apresentando esse universo noturno como espaço de imaginação e poesia.
Segundo Trummer, a noite foi escolhida justamente por sua potência simbólica.
“Ela é muito rica para a criação, nesse sentido poético. Quem já frequentou a boemia sabe que ali existe um turbilhão de paixões, de conversas e imagens. O desafio era fazer música com esse elemento subjetivo.”
Logo depois, a salsa de “Tudo Pode Ser” devolve o impulso festivo da banda, como se lembrasse que, mesmo diante das incertezas, dançar continua sendo uma forma de resistência.
A diversidade segue aparecendo ao longo do repertório sem comprometer sua unidade. A cumbia de “Vou Chamar Meu Povo” sintetiza a nova fase do grupo, enquanto “Outra Solidão”, com participação de Júlia Carvalho, mergulha na delicadeza das relações afetivas.
Em outro momento, “Titi e Tom Tom” – instrumental surgida da melodia que Trummer cantarolava para ninar os filhos Matias e Tomás quando nenéns – interrompe o percurso para revelar que a noite também pode ser memória afetiva e intimidade.
Nos finalmentes do disco, “Poema da Paz” reconecta o grupo ao legado de Erasto Vasconcelos – autor da até hoje celebradíssima “O Baile de Betinha” –, cuja voz aparece na faixa, reafirmando que olhar para o futuro não significa esquecer quem ajudou a construir esse caminho.
Mudar para continuar sendo Eddie
A presença das latinidades talvez seja a novidade mais evidente do disco, mas ela surge sem soar como ruptura. Trummer explica que a banda preferiu absorver elementos desses gêneros em vez de reproduzi-los integralmente.
“A gente pega elementos do gênero e utiliza na nossa música. Por isso não perde essa coisa Eddie, mesmo estando vestido ali com uma salsa.”
O músico lembra que esse passo só aconteceu agora porque a banda sentiu que havia amadurecido o suficiente para explorar essas referências “com autenticidade”, sem transformá-las em mera citação.
Essa lógica vale para todo o álbum. Em vez de colecionar referências, “Noturna” transforma influências em linguagem própria, resultado de quase quatro décadas de convivência entre o rock, os ritmos pernambucanos e a música latino-americana.
É justamente nesse equilíbrio entre novidade e permanência que a Eddie encontra seu momento mais maduro: um disco que expande fronteiras sem perder de vista a casa de onde sempre partiu.
