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João Gomes fala do Rock in Rio, sucesso e estresse: “A vida não é só da van para o camarim”

João Gomes fala do Rock in Rio, sucesso e estresse: “A vida não é só da van para o camarim”


“Esse terceiro lugar aí vale o quê? Um galeto?”, brincou João Gomes ao observar a partida entre França e Inglaterra na disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo, há duas semanas.


O artista assistia à partida — entre uma e outra olhada nos posts do Instagram — no televisor instalado dentro da van que o levava para o segundo show daquela noite, em Sorocaba, a 90 quilômetros da capital paulista.


Antes disso, tinha apresentado seus sucessos como “Dengo”, “Eu tenho a senha” e “Meu pedaço de pecado”, entre outras faixas do premiado projeto “Dominguinho”, ao público da cidade de São Paulo, numa arena montada no Parque do Ibirapuera.


A parada anterior tinha sido em Anastácio (MS), na madrugada do dia anterior. A agenda apertada — que comprometeu seu descanso — não o impediu de receber algo próximo de cinco dezenas de fãs, contratantes e imprensa local no camarim, antes de subir ao palco do interior paulista.




“Desde dezembro eu não paro. É muita coisa acontecendo. Fizemos turnê na Europa e depois foi uma semana gravando publicidade, ligada ao São João. É uma loucura, mas eu só fico muito triste quando não tenho uma semana para me cuidar, quando não tenho um dia (livre). Porque o estresse vai lá pra cima”, diz.


“A vida não é só da van para o camarim. Temos que soltar o estresse, nos aliviar. Chega a ser sobre-humano, mas penso que é um trabalho profissional. A gente tem que deixar o coração em casa, pedir força para Deus e simbora!”


Na sexta-feira passada, porém, João teve uma parada forçada por motivos de saúde. Chegou a desmarcar dois shows — e postou o atestado médico nos stories. O diagnóstico foi de influenza potencializada por sinusite, que o fazia sentir dores de cabeça e febres de 40°C.


Já no domingo, contou que se sentia melhor e seguia tomando os cuidados necessários.


“Tamo junto. Tomem vacina!”, disse nos stories.


Astro no Rock in Rio

O artista — que figurou como o pernambucano mais jovem a ganhar um Grammy Latino — promete que vai tirar seu primeiro mês completo de férias da carreira no ano que vem.

Embora ainda não saiba o que fazer com tanto tempo livre, “é muito para ficar em casa”, pensa. Quem sabe “pegar o carro e ir ao interior”, diz.


Antes de entregar-se ao descanso, tem uma apresentação marcada para a próxima edição do Rock in Rio. No dia 12 de setembro, no Palco Sunset, um dos principais do festival. Ele compõe a programação ao lado de artistas como Maroon 5 e Demi Lovato.


A razão de sua presença ao lado dos expoentes internacionais tem motivo, reforça Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, responsável pelo festival. João é pop.


“O tamanho do João não é só individual. Ele pega uma cena musical muito característica no Brasil e coloca isso no holofote. O pop é o que acontece de mais relevante, não é um ritmo específico. Nessa apresentação, ele será acompanhado da Orquestra Brasileira, com instrumentos brasileiros, como tambores do Amazonas”, diz.


Mirando a força de Alceu

Essa não é a primeira vez que João arrasta suas sandálias no festival. Em 2022, ele fez uma apresentação em formato reduzido, numa parceria com Pedro Sampaio. Foi a primeira vez que o piseiro — uma derivação do forró, ritmo do qual João é expoente — fincou os pés no evento, criado em 1985. Reuniu uma multidão.


“Foi muito surreal aquilo que aconteceu. Estávamos lá no palco reduzido e eu não tinha habilidade, tinha limitações, mas, graças a Deus, deu tudo certo. Sobra muito espaço para a experiência. Eu lembro que tinha olhado as apresentações do Alceu, com sua confiança e habilidade, e reproduzir isso é tão difícil! Ainda estou aprendendo um bocado. Posso dizer que para os próximos Rock in Rio vamos chegar cada vez maiores”, promete.


A explosão do sucesso, porém, não vem sem custo. João, por exemplo, deve comemorar seu aniversário de 24 anos — na sexta-feira — longe da mulher, Ary Mirelle, também de 24 anos, e dos filhos Jorge, de 2 anos, e Joaquim, de 10 meses.


A paixão pela companheira, inclusive, está marcada em sua pele, onde tatuou o personagem Stitch seguido do nome Ary no antebraço. A moça tem o abraço que, ele diz, “recarrega suas energias”.


“Vou passar meu aniversário na Austrália. Vai ser muito doido pra mim, porque estava muito acostumado a passar esse dia com minha esposa. Vai ser doloroso passar longe de Jorge e Joaquim. Mas faz parte. Vai ser uma dor que vou passar e não vou querer passar de novo, não”, ri.


João deve embarcar nesta terça-feira para a Austrália, com shows em Sydney e Brisbane. A jornada internacional, explica o cantor, nem sempre foi fácil.


“Íamos nas casas de show e elas não estavam tão cheias, mas isso é normal. Temos nossas ambições. Queremos tocar para as pessoas e ser provedor da alegria nos olhos das pessoas. Poxa, lembro da primeira vez que fui à Europa e tinha levado uns amigos meus. A festa não tava tão legal e eu falava para eles: ‘Vão lá na frente do palco para dar um volume'”, diverte-se.


“Temos que saber enxergar o quanto somos abençoados (hoje) e agradecer por isso”


Além de todo o equipamento de trabalho, João Gomes diz que carrega nas viagens apenas malas vazias, para trazer presentes que ganha na estrada. No dia em que o Jornal O Globo o acompanhou, ele ganhou pares de sandálias de couro, para ele e os filhos (alpercatas, como rapidamente reconheceu), um exemplar de “Vidas secas”, de Graciliano Ramos (1982-1953) e um carrinho de brinquedo de um pequeno fã chamado Heitor. Assim que o menino deixou a sala, ele reforçou com um dos produtores: “Guarde meu carrinho!”


“Vou para as cidades com mochila e mala vazias para levar os presentes. A galera sabe que eu gosto de mel, tenho um tanto que você não tem noção, meu irmão. As coisas de couro, de artesanato, também fazem os fãs lembrarem de mim”, orgulha-se.


Há também quem peça ajuda para campanhas diversas. Do camarim de Sorocaba, por exemplo, gravou um vídeo para incentivar uma vaquinha para a compra de um remédio de custo milionário para uma criança. Minutos depois, João segurou um chaveirinho ligado à Sociedade São Vicente de Paulo, entidade filantrópica ligada à Igreja Católica. Sorridente, ele disse: “Ajude as pessoas carentes!”


Quem está próximo a João está acostumado à sua disposição sem fim para selfies e outros agrados aos fãs, embora a timidez seja grande. A equipe não impede ninguém de se aproximar e falar, ou pedir foto. No interior paulista, depois dos atendimentos no camarim, foi parado por alguns fãs a caminho do palco, e dois minutos antes de romper para o palco estava na coxia tirando fotos — para lá de sorridente — com quem pedia.


Nesse show em questão, ele mandou seu icônico chapéu, o “bonéu”, para uma fã que segurava um cartaz escrito: “Sua história me inspira a nunca desistir.”


Esse tipo de presente não é tão comum. João é conhecido por ter “ciúme” das peças, criadas sob medida e exclusivamente pelo artesão Irineu José Barboza, de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco.


Alguns modelos têm ondulações em bordados de couro que simulam os altos e baixos da vida. Pernambuco também aparece — além da tatuagem no braço do cantor — em diversas vestimentas. Ele já apareceu, por exemplo, com camisas com bordados e estampas da marca de slow fashion Rafa Q Faz, de Olinda.


Maturidade com o álcool

Para aquecer antes de subir ao palco, nada de álcool. Embora houvesse uma garrafa de cachaça no camarim — que permaneceu lacrada. João jantou uma banana amassada com mel e whey protein. Também aproveitou para comer docinhos. A relação mais distante com o álcool, ele explica, é fruto da maturidade.


“Quando estou com minha esposa, eu tomo uma cachaça ou uma cerveja. O vinho, até agora, não achei um que bata certo. Quando bebo vinho, é como Messi ensinou (num vídeo que ganhou as redes sociais), com Sprite. Mas também dá um negócio na barriga, minha véia, que Ave-Maria”, conta.

“Antes (bebia) para almoçar, jantar, no camarim. Eu não percebia como isso me sabotava. Tenho me vigiado e levado mais leve. Também não consigo beber muito”.


João conta que tem cuidado do corpo com mais intensidade nos últimos três anos, desde que se instalou no Recife, vindo de Petrolina. Antes de ficar mais ativo com os treinos e reduzir o álcool, chegou a passar mal em cima de um trio elétrico de carnaval. Os exames de saúde mais recentes mostraram que o esforço deu resultado.


“Em exames anteriores, eu estava quase com gordura no fígado. Hoje em dia, posso até beber que sinto a ressaca com saúde. Antes, eu não tinha. Meu organismo nem entendia quando consumia uma proteína. Mudou tudo: a balança, o espelho e a disposição. Voltei, inclusive, a jogar bola com o entusiasmo de antes”, jura.

“Não dá pra deixar o brilho da mocidade se perder por escolhas erradas. Já perco muito por ganhar a vida à noite, porque a testosterona ascende mais durante o dia, e é bem na hora que estamos dormindo. Isso é muito ruim”.


João conta que também amadureceu seu entendimento sobre as finanças.


“No final das contas também vou ter que ensinar sobre finanças aos meus filhos. Desde o dia em que o Jorge chegou, eu sabia que tinha que deixar algo para ele. E não só herança, tinha que ensiná-lo a ser um menino organizado. Na parte financeira, eu vivo muito confortavelmente. Posso ajudar minha família de forma leve. Mas isso já foi pior. Eu não queria ser como aquele livro ‘A metamorfose’, do Franz Kafka. Tem o cara que ajudava a família inteira e ele vira uma barata, um animal asqueroso. Eu tenho uma meta, ajudo as pessoas, mas quero que elas cheguem lá. É importante que elas ascendam na vida. Minha mulher, inclusive, realizou metas financeiras que foi um privilégio ver acontecendo”.


Pelo Grammy de forró

A maturidade de quem ainda nem completou 24 anos impressiona até Geraldo Estrela, seu empresário, que o acompanha nos shows


“A troca natural da estrada o fez crescer e evoluir. Ele consegue colocar em prática esses pensamentos fora da caixa, para a frente”, avalia. “Ele pensa no futuro quando fala da (necessidade da) criação de uma categoria de forró no Grammy Latino. João sabe que isso não é uma coisa para agora. Sabe que isso é para outras gerações”.


Em meio a tantas transformações e sucessos que ressoam nas parcerias musicais, de Marisa Monte a Gilberto Gil, passando por MC Cabelinho e, claro, Mestrinho e Jota.Pê, com quem mantém o bem-sucedido projeto Dominguinho, João diz que tem a senha para não perder sua essência.


“A gente tem que se comportar como uma pessoa da nossa idade. Não deixo de dizer o que eu gosto, nem de ser contraditório. A vida é essa contradição, numa hora somos fãs de NBA e noutra de futebol. Vamos mudando conforme a Lua, sigo meu coração”, garante.

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