O registro de uma apresentação transmitida pela internet em meio ao período de isolamento social provocado pela pandemia de covid-19 deu origem ao novo lançamento de Petrônio e as Criaturas.
Disponível nas plataformas digitais a partir de 31 de julho, “Mergulho Ao Vivo” amplia o repertório do álbum de estúdio lançado em 2021 ao transformar uma performance virtual em um trabalho fonográfico.
Inicialmente concebida apenas como uma live no YouTube, a apresentação ganhou novo destino após chamar atenção pela qualidade sonora e pela força das interpretações.
O material passou por remixagem e remasterização antes de se transformar no EP.
“Como o áudio da live e a interpretação das canções ficaram com uma excelente qualidade, veio a necessidade de aproveitar o momento espontâneo do som para remixar e remasterizar algumas das canções que foram executadas”, afirma o produtor musical Fernando S., responsável pelo projeto.
Segundo Petrônio Lorena, o contexto em que o show aconteceu contribuiu para a intensidade das gravações. “Talvez porque estivéssemos no claustro da pandemia. O importante é que o registro afirma a pujança do repertório”, diz o compositor.
A sonoridade do disco privilegia uma abordagem acústica e evidencia a interação entre a voz de Petrônio e os arranjos de Rama Om, integrante da banda desde 2016.
Multi-instrumentista, compositor e arranjador, ele transita por instrumentos como violões de oito e doze cordas, violino, guitarra, viola de doze cordas, djeridu, gaita e marimba, conferindo ao trabalho nuances que dialogam com o jazz sem abandonar a identidade psicodélica do grupo.
As sete faixas percorrem diferentes universos temáticos. “Troglodita” canaliza críticas à violência estimulada por ideologias de inspiração fascista, enquanto “Os Olhos Secos de Biu”, inspirada no poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, aborda a permanência de estruturas de exploração política e econômica no interior brasileiro.
Em outra direção, “Voador” e “Desenhos de Nuvens” evocam lembranças da infância de Petrônio em Serra Talhada, no Sertão pernambucano. As duas músicas também extrapolam o universo da banda e integram projetos cinematográficos dirigidos pelo próprio artista:
“Desenhos de Nuvens” faz parte da trilha de “O Silêncio da Noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras” (2016), enquanto “Voador” integra “Nascente”, longa-metragem em fase de produção.
A parceria com o trombonista Juba Pires, da Orquestra Voadora, aparece em “Cogumelo Secular”, composição que mistura personagens fantásticos, como duendes e um saci de três pernas, a uma letra de viés anti-imperialista embalada por influências da música celta reinterpretadas sob uma estética psicodélica.
O encerramento fica por conta de “Chão de Caramelo”, escrita em parceria com o compositor carioca Jeff Chagas.
Composta em 1998 e anteriormente registrada pela banda Balaio, a canção ocupa no EP o mesmo papel que desempenha nas apresentações do grupo: abrir simbolicamente um novo percurso.
Ao revisitar composições de épocas distintas de sua carreira, Petrônio enxerga o lançamento como uma oportunidade de observar a própria trajetória artística.
“Os sentimentos permanecem, alguns a gente guarda e outros ficam sempre à vitrine. Acho que é isso que acontece quando a gente revisita a obra. É uma forma também de se ter uma dimensão do que o conjunto da obra representa.”
