Depois de transformar a reverência a Gal Costa em um dos espetáculos mais celebrados dos últimos anos, Catto retorna a Pernambuco para mostrar uma artista que decidiu caminhar sem escudos.
Em duas noites distintas – uma grandiosa, com banda completa, no Festival de Inverno de Garanhuns, na quinta (16), e outra, íntima, apenas com voz e violão, na Casa Estação da Luz, em Olinda, no sábado (18) –, a cantora apresenta diferentes faces de um mesmo percurso: o de quem encontrou na própria história a matéria-prima de sua música.
O centro dessa travessia é “Caminhos Selvagens” (2025), primeiro álbum totalmente autoral da artista após um longo intervalo entre discos de inéditas, trabalho que consolida uma nova etapa de sua trajetória ao transformar experiências pessoais em canções de forte carga emocional.
A turnê que chega ao FIG acompanha essa mesma lógica: em vez de esconder as cicatrizes, faz delas dramaturgia, som e imagem.
Em entrevista à Folha de Pernambuco, Catto diz que esse mergulho nasceu muito antes do disco existir.
“Eu sempre fui muito fã dessas cantoras que tinham essa obra muito confessional, muito feminina, partilhando esses traumas, essas desilusões. (…) A minha afirmação de gênero veio de encontro direto a essa necessidade minha de expor a minha vulnerabilidade e finalmente fazer o disco que eu queria ter feito desde que eu tinha 13 anos de idade”, conta.
Uma compositora que fala em primeira pessoa
Se durante boa parte da carreira Catto construiu uma reputação como uma das grandes intérpretes da música brasileira, em “Caminhos Selvagens” ela desloca o foco para a compositora.
Ao longo das oito faixas, Caminhos Selvagens desenha uma espécie de filme sentimental. As canções caminham entre baladas confessionais, explosões de guitarras e arranjos que alternam delicadeza e tensão, criando uma atmosfera noturna em que desejo, perda e reconstrução se entrecuzam.
As oito faixas funcionam como fragmentos de uma mesma narrativa, costurando luto, desejo, paixão, ruínas afetivas e recomeços em uma sonoridade que aproxima guitarras ruidosas, atmosferas etéreas e um imaginário herdado do rock alternativo dos anos 1990.
Em vez de organizar um relato cronológico, Catto costura fragmentos de diferentes épocas da própria vida, alguns deles escritos ainda na adolescência e revisitados anos depois sob outra perspectiva.
“Caminhos Selvagens” procura transformar intimidade em identificação coletiva. Para a cantora, essa mudança só foi possível quando deixou de esconder a própria experiência atrás de metáforas.
“Foi a primeira vez que pude ter a liberdade de contar as minhas histórias em primeira pessoa, sem criar subterfúgios, sem esconder a verdade atrás de uma crônica ou de uma metáfora. O diário é exatamente ali”, afirma.
Esse amadurecimento também aparece na forma como a artista passou a lidar com o próprio tempo criativo. Em vez de produzir sob pressão, Catto preferiu deixar cada composição encontrar sua personalidade.
“Eu gesto as músicas durante um tempo. Tem música que fico fazendo há um ano até entender qual é a poética dela. O meu maior luxo hoje é poder respeitar esse processo”, afirma.
Essa exposição radical não nasce como manifesto, embora inevitavelmente dialogue com a dimensão política de sua existência enquanto artista trans.
“É uma necessidade artística. É uma necessidade de ser de verdade, de compartilhar de verdade as coisas. (…) É uma libertação para mim também. E essa libertação é política porque também liberta outras pessoas. A música viraliza essa sensação”, resume.
O eco de Gal
Antes de voltar às próprias composições, Catto atravessou o repertório de Gal Costa no elogiado “Belezas São Coisas Acesas por Dentro”.
A experiência não apenas ampliou seu público, como também preparou o corpo e a voz para enfrentar um material muito mais exigente emocionalmente.
Se o álbum dedicado a Gal Costa ampliou sua projeção como intérprete, “Caminhos Selvagens” preserva a intensidade daquele universo sonoro, mas desloca o centro da narrativa para dentro. Permanecem as guitarras densas, os contrastes entre delicadeza e explosão e o gosto por interpretações viscerais, agora a serviço de um repertório inteiramente autoral.
Segundo ela, cantar Gal funcionou como uma espécie de laboratório para o novo momento.
“Cantar Gal me deu musculatura, me deu respiração, me deu técnica, me deu público também. (…) Abriu o meu corpo para poder encarnar as minhas próprias músicas”, diz. “Esse repertório era o trabalho mais difícil de cantar que eu já tinha vivido.”
Não por acaso, o espetáculo do FIG também estabelece pontes entre essas fases. Além das canções de “Caminhos Selvagens”, o repertório preserva momentos dedicados ao universo de Gal, costurando diferentes capítulos de uma carreira que hoje completa 15 anos.
Do palco do FIG ao silêncio da Estação da Luz
Embora compartilhem o mesmo repertório afetivo, os dois shows pernambucanos propõem experiências opostas.
Em Garanhuns, Catto apresenta a versão completa da turnê, acompanhada por banda, em um espetáculo construído para explorar toda a potência dramática do disco.
Já em Olinda, a atmosfera muda completamente. “É um show de voz e violão, cantando as músicas da minha carreira inteira. Tem ‘Caminhos Selvagens’, ‘Belezas’, ‘Nascimento de Vênus’, todos”, explica.
O retorno também tem peso afetivo. A artista guarda lembranças marcantes de suas passagens pelo Festival de Inverno de Garanhuns e diz enxergar em Pernambuco um dos públicos que melhor compreendem sua obra.
“Eu amo muito, porque Pernambuco é um lugar que me entende, que me abriga na minha poesia. (…) É um público que sempre entendeu a minha maluquice”, afirma. E celebra a volta ao FIG justamente com um trabalho autoral: “Fico feliz de poder ver as pessoas cantando o meu repertório num festival lindo como o FIG.”
SERVIÇO
Catto – “Caminhos Selvagens”
Quando: Quinta-feira (16), às 23h
Onde: Festival de Inverno de Garanhuns – Palco Pop – Parque Euclides Dourado – Garanhuns-PE
Acesso gratuito
Instagram: @oficialcatto/ @figgaranhunsoficial
Catto – voz e violão
Quando: Sábado (18), às 19h
Onde: Casa Estação da Luz – R. Prudente de Morais, 313, Carmo – Olinda – PE
Ingressos: a partir de R$ 50, no Sympla
Instagram: @oficialcatto/ @casaestacaodaluz
