De um lado, os tambores, a ancestralidade afro-brasileira e a vibração da rua. Do outro, cordas, metais e a arquitetura da música sinfônica.
Em “Afrossinfonicidade – Ao Vivo em Salvador”, lançado em dois volumes, Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto demonstram que esses universos nunca estiveram separados.
Gravado na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, o álbum recria diferentes momentos do repertório do artista baiano em arranjos orquestrais que ampliam – sem domesticar – a potência rítmica e inventiva de suas composições.
Diálogo que amadureceu no palco
A parceria nasceu em 2024, em concerto na Avenida Paulista, em São Paulo, e foi ganhando corpo a cada reencontro até se transformar em registro fonográfico.
Para Brown, “‘Afrossinfonicidade’ não é apenas um disco. É uma concretude. Há muito tempo eu vinha dizendo que chegaria o momento de unir essa linguagem sinfônica à percussão.”
Segundo ele, a decisão de dividir o lançamento em dois volumes acompanha a evolução desse processo criativo. “A música não termina quando é lançada; ela continua vivendo na escuta de cada pessoa.”
O maestro Rodrigo Toffolo conta que o interesse da Orquestra Ouro Preto – que já trabalhou com Alceu Valença, João Bosco, Pato Fu, etc – sempre esteve voltado para um aspecto menos explorado da produção de Brown: sua faceta de compositor.
“A gente sempre quis tratar dessa vertente composicional do Carlinhos”, afirma. Para ele, o baiano é “um cancioneiro da música brasileira”, qualidade que, acredita, ainda merece ser mais reconhecida.
Repertório que ganha novas cores
“Afrossinfonicidade” abriga um total de 17 canções de diferentes períodos da trajetória de Brown. Obras surgidas em “Alfagamabetizado” (1996), seu primeiro álbum – “A Namorada”, “Argila” – dialogam com sucessos compostos para Marisa Monte – “Segue o Seco”, “Magamalabares” – e Tribalistas – “Velha Infância”, “Já Sei Namorar” –, além de “E.C.T.”, “Quixabeira”, “Muito Obrigado Axé” e outras.
Brown explica que a seleção das músicas “começou naturalmente pelo universo do ‘Alfagamabetizado’, porque ali já existia essa ideia da ‘afrossinfonicidade’. Depois fomos ampliando esse diálogo com canções de diferentes momentos da minha trajetória.”
Toffolo destaca, ainda, momentos que ganharam especial impacto na nova formação. Ele cita “Argila” como uma síntese da proposta artística do projeto: “A performance do disco é muito potente. ‘Argila’ mostra muito bem esse encontro da percussão com a dramaticidade da música.”
Mesmo compasso
“Afrossinfonicidade” questiona a ideia de que a percussão afro-brasileira e a linguagem sinfônica pertençam a tradições inconciliáveis.
Brown observa que “a percussão também é uma forma de organização sofisticada do som. A orquestra não chega para transformar a percussão; ela chega para dialogar […] ‘Afrossinfonicidade’ nasce justamente desse reconhecimento de que a ancestralidade também produz uma escrita musical de enorme complexidade.”
Para Toffolo, esse entendimento também reflete a transformação do papel das formações sinfônicas no século XXI. “Hoje a orquestra está presente em todo canto, mostrando que é capaz de tudo, inclusive dos encontros que a gente quiser fazer com ela.”
Ao lado de Brown e dos percussionistas que o acompanham, a Orquestra Ouro Preto constrói uma sonoridade em que Minas e Bahia, violinos e tambores, escrita e improviso deixam de ocupar margens opostas para compartilhar o mesmo compasso.
