Poucos artistas brasileiros conseguiram transformar vida, pensamento e arte em uma mesma corrente criativa como Jorge Mautner.
Aos 85 anos, o compositor, escritor, violinista e pensador carioca chega ao Recife neste domingo (12), para um encontro que reúne música, literatura e conversa no Paço do Frevo.
A programação inclui pocket-show ao lado da cantora Cecilia Beraba – com as participações de Fred Zeroquatro Juliano Holanda, Zeh Rocha, Valdi Afonjah e Breno Lira –, lançamento do seu livro “Poemas Selecionados” e um bate-papo conduzido pelo jornalista e DJ Renato L, com o advogado Fábio Cesnik e a atriz, bailarina e produtora Ana Paula Jones.
Figura decisiva na construção do imaginário tropicalista – ainda antes de o movimento ganhar nome e forma –, Mautner é filho de judeus europeus refugiados do nazismo (daí a alcunha “O Filho do Holocausto”), nascido no Brasil um mês após a chegada dos pais nos trópicos.
Forjou um universo onde o pensamento judaico, o candomblé, a filosofia, a música popular e a cultura afro-brasileira passaram a coexistir em sua criação.
Essa visão antropofágica também atravessa sua literatura: em 1963, aos 21 anos, recebeu o Prêmio Jabuti pelo romance “Deus da Chuva e da Morte”, inaugurando uma trajetória que nunca reconheceu fronteiras entre palavra e canção.
Do Tropicalismo ao batuque atômico
Embora nunca tenha pertencido oficialmente ao tropicalismo, Mautner ajudou a formular muitos dos princípios que marcariam aquela revolução estética. Para ele, seis décadas depois, a essência permanece viva.
“O tropicalismo é a própria alma do Brasil. Ele representa essa coisa incrível que é o amor, a poesia e o mistério da felicidade. O tempo todo como emoção de amor, de paixão, de felicidade, de esperança e de consolo”, afirma.
Sua influência alcançou também outra transformação decisiva da música brasileira. Composta ao lado de Nelson Jacobina, em 1974, “Maracatu Atômico” ganhou nova dimensão ao ser recriada por Chico Science & Nação Zumbi no álbum “Afrociberdelia” (1996), tornando-se um dos hinos do manguebeat.
Mautner também é um dos protagonistas do projeto “Kaosnavial”, que marcou o encontro entre a sua “Mitologia do Kaos” e as raízes do maracatu rural da Zona da Mata de Pernambuco, através de Mestre Zé Duda, do Maracatu Estrela de Ouro, de Aliança. O projeto rendeu álbum, em 2009, e o documentário “Maracatu Atômico Kaosnavial”, em 2012.
Não por acaso, voltar ao Recife significa revisitar uma afinidade construída há décadas. “Pernambuco sempre me inspirou. Suas doses de imaginação, de paixão e de surpresas. Sempre há surpresa! Pernambuco e seus mistérios entram na alma, no coração da gente… para sempre”, diz.
Poesia como estado permanente
Durante o evento, Mautner apresenta ao público “Poemas Selecionados”, volume que reúne 50 textos escritos entre 2019 e 2021. O livro funciona como um espelho de toda a sua trajetória artística, condensando temas, imagens e inquietações que atravessam décadas de produção.
“O livro sintetiza todos os meus outros livros e músicas. Com meu violino eu faço batuques. Está inserido em mim e não vivo sem isso. Vejo em sonhos. O tempo todo sinto essas ondas. Ondas musicais, ondas de carinho, ondas de mistério entrelaçadas com a realidade e depois com a imaginação… e sempre o amor e a paixão dominando tudo”, resume.
No Paço do Frevo, o encontro promete reafirmar aquilo que Jorge Mautner faz há mais de 60 anos: dissolver fronteiras entre literatura, música, filosofia e celebração da diversidade brasileira.
SERVIÇO
Jorge Mautner no Paço do Frevo
Pocket-show Jorge Mautner e Cecilia Beraba (participações de Fred Zeroquatro, Juliano Holanda, Zeh Rocha, Valdi Afonjah e Breno Lira) + Lançamento do livro “Poemas Selecionados” + Bate-papo conduzido por Renato L
Quando: Domingo (12), às 16h
Onde: Paço do Frevo – Praça do Arsenal da Marinha, 91, Bairro do Recife – Recife-PE
Ingresso: a partir de R$ 40, à venda no Sympla
Instagram: @pacodofrevo
