Há pouco menos de uma semana, o Brasil encerrou sua pior campanha em Copas do Mundo desde 1990. A Seleção deu ao torcedor o velho gostinho de chegar, ao menos, às oitavas de final, jogando com a Noruega. Aos 34 minutos do segundo tempo, entretanto, o viking de 1,95 m de altura, o atacante norueguês Erling Haaland, cabeceou, a rede balançou e o jogo virou trauma coletivo para os brasileiros.
Mas a rivalidade com a Noruega já havia começado meses antes, na “Copa do Audiovisual”: o Oscar. No último 15 de março, o Brasil entrou em campo com o “técnico” Kleber Mendonça Filho e seu longa-metragem “O Agente Secreto”. Do outro lado, Joachim Trier com “Valor Sentimental”. Os dois disputavam o prêmio de Melhor Filme Internacional. Mas às 22h51, a Noruega abriu o placar.
Quatro meses depois, voltou a vencer. Após 28 anos fora de uma Copa do Mundo, o país nórdico retornou para exibir um verdadeiro filme de terror aos brasileiros. O retrospecto entre as seleções no mundial agora é simples: quatro confrontos, quatro vitórias norueguesas.
O Brasil perdeu no Oscar. Depois perdeu no futebol. A pergunta que ficou foi outra: afinal, quem é essa galera? Para o professor de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Rodrigo Carreiro, o horror social – subgênero do terror em que o medo e a tensão não vêm de monstros, mas também de estruturas sociais – é uma das melhores ferramentas para compreender a cabeça de uma nação, suas mazelas sociais e seus medos.
Pertinho
Embora partam de histórias diferentes – “Valor Sentimental” sobre conflitos familiares e “O Agente Secreto” mergulhado na paranoia da ditadura brasileira -, os dois filmes foram apontados como protagonistas de uma das disputas mais acirradas do Oscar 2026.
Segundo o professor Carreiro, o cinema escandinavo costuma privilegiar conflitos existenciais. “Ele mergulha fundo sem molhar os pés, porque dificilmente você vai chorar ou gargalhar. É como um nó na garganta”, resume.
Já no Brasil, o horror social costuma dialogar com questões raciais, religiosas e de gênero. Apesar das diferenças, o acadêmico vê um ponto em comum. “No fundo, os dois audiovisuais [brasileiro e nórdico] tratam do mesmo fenômeno: a invasão das preocupações sociais no cinema fantástico”, conclui.
Paralelo dimensional
Em “Mate-me por Favor” (2015), Anita Rocha da Silveira usa o despertar da sexualidade de adolescentes e a presença de um assassino para discutir desejos e inquietações da juventude. Em “Thelma” (2017), Joachim Trier parte do conflito entre desejo, religião e liberdade de uma jovem universitária. Brasil e Noruega transformam os conflitos da juventude e do desejo em horror psicológico.
Outro paralelo aparece entre “As Boas Maneiras” (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra, e “Descanse em Paz” (2024), de Thea Hvistendahl. Enquanto o filme brasileiro recorre ao lobisomem para discutir cuidado, maternidade, raça e classe, a produção norueguesa recorre a zumbis para abordar o luto e o cuidado com aqueles que retornam dos mortos.
Mudar o canal
Depois dos dois gols de Haaland, a Noruega segue viva na Copa do Mundo. O Brasil, por sua vez, continua quente e, agora, triste, poucos meses depois de também ver um filme norueguês superar um brasileiro no Oscar.
No fim, talvez a maior coincidência entre os dois países seja essa: os monstros mudam, mas o horror continua sendo a melhor forma de contar seus medos. Ao brasileiro, resta trocar a Copa por um filme norueguês, conhecer os assombros dos “vikings” e esperar por 2030, para, quem sabe, dar um sustinho neles.
