*Por Giulia Jardim

Dario Rustico, diretor da Costa Cruzeiros nas Américas (Felipe Abílio/M&E)

Durante décadas, a indústria de cruzeiros vendeu uma promessa relativamente simples: conhecer vários destinos em uma única viagem. Quanto mais portos no roteiro, maior o apelo. Hoje, porém, essa lógica dá lugar a uma nova forma de viajar. Mais do que acumular cidades visitadas, o passageiro busca experiências capazes de transformar a jornada em parte fundamental da viagem.

É nessa mudança de comportamento que a Costa Cruzeiros tem concentrado sua estratégia global. Após passar por uma ampla reestruturação de frota nos últimos anos, a companhia italiana aposta em uma combinação de modernização operacional, autenticidade cultural e experiências imersivas para atender um consumidor cada vez mais exigente.

A transformação incluiu a saída de navios históricos e a consolidação de uma operação mais enxuta, alinhada às novas demandas do mercado. Segundo Dario Rustico, presidente executivo da Costa Cruzeiros para as Américas, o objetivo não era apenas ganhar eficiência, mas fortalecer o posicionamento da marca para o futuro.

“A reestruturação da frota foi um movimento importante de disciplina estratégica e visão de longo prazo. Ela nos permitiu aprimorar a eficiência, modernizar os navios e entregar uma experiência de viagem única para os hóspedes”, comentou em entrevista ao M&E.

Mas a aposta da companhia não se resume à renovação da frota. Para Rustico, os navios continuam evoluindo em conforto, design e capacidade de oferecer experiências cada vez mais completas a bordo. O diferencial, porém, está na forma como essas estruturas se conectam aos destinos visitados.

“Os navios continuam evoluindo, com maior conforto, design e capacidade de oferecer vivências a bordo cada vez mais ricas. Mas isso, por si só, não é suficiente. O que realmente diferencia o cruzeiro é a capacidade de criar uma narrativa contínua entre o mar e a terra, em que o navio não compete com o destino, mas o complementa e o amplifica”, afirma.

Para a companhia, essa evolução não significa abrir mão de suas origens. Pelo contrário: a identidade italiana continua sendo um dos pilares centrais da marca.

A Itália como diferencial

Em uma indústria marcada por navios cada vez maiores, atrações tecnológicas e entretenimento de alto impacto, a Costa aposta em um diferencial menos tangível, mas difícil de reproduzir: sua identidade italiana.

Mais do que decoração, gastronomia ou referências visuais, a companhia defende que essa herança se manifesta na forma de receber os hóspedes, na hospitalidade e na atmosfera criada a bordo.

“Em um cenário de forte padronização global do entretenimento, a autenticidade cultural ganha ainda mais relevância. A experiência italiana não é apenas estética ou gastronômica; ela está na forma de receber, na hospitalidade, no estilo de vida a bordo e na maneira como transformamos a viagem em algo humano, caloroso e emocional”, explica Rustico.

A estratégia acompanha uma tendência observada em diversos segmentos do turismo: a busca crescente por autenticidade, conexão cultural e experiências capazes de gerar memórias duradouras.

O novo perfil do brasileiro para viagens de cruzeiros

Essa transformação também pode ser percebida entre os brasileiros que embarcam rumo ao Mediterrâneo, um dos principais mercados da Costa. Se há uma década predominava o desejo de visitar o maior número possível de cidades e monumentos em uma única viagem, hoje o comportamento é bastante diferente.

“Havia uma busca essencialmente geográfica e aspiracional. O brasileiro queria o carimbo no passaporte e ver o maior número de cidades em uma única viagem”, relembra Rustico.

O movimento atual, segundo ele, reflete um viajante mais maduro, interessado em vivências que vão além dos cartões-postais.

“Hoje, o brasileiro que vai ao Mediterrâneo busca significado, autenticidade e exclusividade. Ele não quer apenas tirar uma foto em frente a um monumento; quer vivenciar o estilo de vida local, a gastronomia regional e a cultura de forma imersiva.”

Essa mudança impulsiona o que a companhia define como o “luxo da experiência”. Em vez de simplesmente acumular destinos, o viajante valoriza momentos únicos, como observar a Acrópole de Atenas a partir do mar ou assistir ao pôr do sol diante do vulcão Stromboli.

Quando o mar vira destino

Se o viajante de hoje busca significado além dos cartões-postais, a Costa encontrou uma forma de levar essa proposta para dentro do próprio cruzeiro. É daí que surgem os conceitos Sea Destinations e Land Destinations, que transformam a navegação em parte essencial da experiência.

Na prática, a proposta rompe com a ideia tradicional de que o tempo em alto-mar é apenas um deslocamento entre portos. Experiências de observação de estrelas em áreas remotas do oceano, celebrações culturais durante a navegação e atividades conectadas aos destinos visitados passam a integrar uma narrativa contínua entre mar e terra.

“A resposta tem sido extremamente positiva e confirma que estamos no caminho certo ao evoluir o conceito de cruzeiro para uma experiência mais sensorial e integrada”, celebra Rustico, ao comentar a receptividade dos hóspedes à proposta.

A percepção, segundo a companhia, é que o passageiro passou a valorizar não apenas os destinos visitados, mas também tudo o que acontece entre eles. “O hóspede não está apenas escolhendo um itinerário, mas sim um conjunto de experiências.”

Essa visão também orienta a forma como a Costa enxerga o futuro da indústria. “Na nossa visão, essa não é uma escolha entre dois caminhos opostos. O futuro dos cruzeiros passa justamente pela integração inteligente entre o navio e os destinos, onde ambos se potencializam mutuamente.”

Sabores que contam histórias

A gastronomia acompanha essa mesma evolução. Se antes era vista como um complemento da viagem, hoje ocupa posição de destaque na experiência do passageiro. A proposta é transformar cada refeição em uma extensão do roteiro, conectando ingredientes, culturas e histórias dos destinos visitados.

“Hoje, percebemos um hóspede muito mais atento à origem dos ingredientes, à autoria dos menus e à possibilidade de viver uma jornada sensorial através da comida. A refeição deixou de ser um momento funcional e passou a ser uma extensão da viagem, uma forma de viajar também pelo paladar”, destaca Rustico.

Nos navios da companhia, essa estratégia ganha força por meio de uma ampla variedade de restaurantes e experiências assinadas por chefs renomados da gastronomia internacional, como Bruno Barbieri, Hélène Darroze e Ángel León.

Mais do que alimentar, a ideia é despertar emoções e criar lembranças por meio dos sabores, reforçando a percepção de que cada momento da viagem faz parte de uma experiência integrada.

Brasil: potencial reconhecido, entraves persistentes

Se a Costa enxerga o futuro dos cruzeiros em experiências cada vez mais sofisticadas, o Brasil continua ocupando um papel importante nessa estratégia. Apesar dos desafios operacionais que historicamente afetam o setor, a companhia mantém uma aposta de longo prazo no mercado nacional, considerado um dos mais promissores da América do Sul.

“O Brasil continua sendo um mercado prioritário para a Costa”, afirma Rustico. A avaliação é sustentada pela forte afinidade do brasileiro com o produto, pelo potencial de crescimento da atividade no país e pelo impacto econômico que os cruzeiros podem gerar nos destinos atendidos.

Mas transformar esse potencial em expansão concreta ainda depende da superação de gargalos conhecidos pela indústria. Segundo o executivo, operar um navio na costa brasileira pode custar até 50% mais do que em mercados concorrentes, como Caribe e Mediterrâneo, o que reduz a competitividade do país na disputa por navios e investimentos. “O grande desafio não é a falta de interesse da Costa Cruzeiros, mas sim a viabilidade operacional e econômica.”

Além dos custos elevados, a infraestrutura portuária continua sendo um dos principais pontos de atenção. Para a companhia, a modernização dos terminais, a ampliação da capacidade de atracação e melhorias na logística são medidas essenciais para destravar o crescimento do setor. “Precisamos de investimentos direcionados e contínuos na modernização e expansão da infraestrutura portuária em diversos destinos estratégicos.”

Na visão de Dario, avanços nessas áreas poderiam ampliar significativamente a competitividade brasileira e abrir espaço para uma presença mais robusta do país nos itinerários dos grandes navios internacionais, incluindo destinos que hoje enfrentam limitações estruturais para receber operações com maior frequência.

“O que sustenta nossa aposta é a combinação de três fatores: a afinidade do brasileiro com o produto cruzeiro, o potencial de crescimento da penetração desse tipo de viagem no mercado e a capacidade de gerar impacto econômico relevante nos destinos atendidos. Nosso compromisso é de longo prazo, com foco em previsibilidade, eficiência operacional e desenvolvimento sustentável do mercado, sempre em diálogo com autoridades, portos e parceiros locais”, afirma o executivo.

A corrida pela descarbonização

Se a modernização da infraestrutura é apontada como um dos principais desafios para o crescimento dos cruzeiros no Brasil, ela também será fundamental para outra transformação que já está em curso na indústria: a descarbonização das operações marítimas.

O tema ocupa posição central nas estratégias das grandes companhias globais e deve moldar os investimentos do setor ao longo das próximas décadas. Na Costa, esse movimento já começou com a incorporação de navios movidos a gás natural liquefeito (GNL), como o Costa Toscana e o Costa Smeralda, tecnologia que reduz significativamente as emissões de poluentes e integra o plano da companhia para alcançar emissões líquidas zero até 2050.

Mas, para Rustico, a mudança não dependerá de uma única solução tecnológica. “Na próxima década, o maior impacto não virá de uma única tecnologia isolada, mas sim da combinação inteligente entre a eficiência imediata e a flexibilidade para os combustíveis do futuro.”

Entre as apostas da indústria estão o Bio-GNL, combustíveis sintéticos de baixo carbono, sistemas inteligentes de eficiência energética e o chamado cold ironing, tecnologia que permite aos navios utilizar energia elétrica fornecida pelos portos e desligar seus motores durante as escalas.

A expectativa é que, até 2028, metade da frota global de cruzeiros esteja preparada para operar com GNL ou metanol, enquanto 72% dos navios terão capacidade para utilizar energia em terra. Um cenário que, na avaliação da companhia, reforça a necessidade de que os portos brasileiros também avancem em infraestrutura e adaptação tecnológica para acompanhar a evolução do setor.

O futuro da venda de cruzeiros

A transformação dos cruzeiros não passa apenas pelos navios ou pelos roteiros. Ela também está mudando a forma como as viagens são apresentadas e comercializadas.

Para Rustico, o agente de viagens tende a assumir um papel cada vez mais estratégico, deixando de atuar apenas como intermediário da venda para se tornar um consultor capaz de interpretar desejos, expectativas e perfis de viagem.

“O mercado ainda debate muito o formato tradicional: o tamanho do navio, o número de toboáguas ou a lista geográfica de portos. O que está surgindo de forma silenciosa é uma mudança profunda no comportamento do consumidor, que não compra mais o destino, mas sim as experiências que serão vividas.”

Nesse cenário, conhecer profundamente os produtos, compreender as diferenças entre os itinerários e traduzir essas características em recomendações personalizadas torna-se um diferencial cada vez mais relevante para os profissionais do setor. Para a Costa, o agente que gera valor hoje é aquele capaz de conectar o viajante à experiência mais adequada ao seu perfil — seja uma jornada voltada à gastronomia, à imersão cultural, ao contato com a natureza ou à descoberta de novos destinos. Mais do que vender uma cabine, trata-se de ajudar o cliente a construir a viagem que ele deseja viver.