O Teatro Valdemar de Oliveira, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, foi classificado como de alto risco de desabamento pela Defesa Civil da capital pernambucana. Fechado há mais de cinco anos, o importante marco cultural da cidade convive com uma realidade de abandono, marcada por furtos e depredação.
O espaço foi enquadrado como imóvel de risco alto (R3), com possibilidade de desabamento. Os técnicos identificaram que o equipamento está “abandonado e em precário estado de conservação”, em vistoria feita em fevereiro de 2024, após o incêndio que o atingiu.
Dentre as falhas estruturais apontadas, o órgão destacou a “coberta destruída e sem revestimento, além da presença de umidade, fissuras, ferragens expostas e desprendimentos de materiais”.
“O imóvel foi classificado como R3 (Risco Alto), indicando que as anomalias detectadas geram risco de deterioração e comprometimento de uso, implicando em necessidade de reparos imediatos”, completou a Defesa Civil do Recife.
O relatório também recomendou aos gestores do teatro que “realizassem as obras necessárias de recuperação, com acompanhamento de profissionais habilitados”.
Teatro está em processo de tombamento
O local está em processo de tombamento e pertence ao Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Além dos danos na estrutura, há indícios de que o ponto também é usado como moradia.
Na última vistoria, feita em 2025, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) também apontou algumas medidas emergenciais para a proteção da estrutura. São elas:
- Restaurar o travamento de empenas e alvenarias laterais com altura elevada;
- isolar a edificação;
- restabelecer a coberta do imóvel;
- remover entulhos, drenar água acumulada e dedetizar o imóvel;
- executar recuperação estrutural de elementos afetados;
- apresentar ART (Anotação de Responsabilidade Técnica), atestando as condições de estabilidade da edificação.
“Para além das indicações acima, foi solicitado: sinalização informativa e de alerta referente aos riscos atuais que incidem sobre o bem; apresentação de laudo e estudo do estado de conservação atual do bem”, completou a Fundarpe, em nota enviada à reportagem.
A fundação também esclareceu que uma nova fiscalização do Teatro Valdemar de Oliveira será realizada para verificar as condições atuais da estrutura.
Até o momento, não foram apresentados planos, projetos ou estudos para recuperação do imóvel. Também não há conclusão prevista para o tombamento.
Histórico de descasos com o imóvel
Fechado durante a pandemia de Covid-19, em 2020, o Teatro Valdemar de Oliveira, que já foi cenário de grandes acontecimentos culturais no Recife, vive um histórico de descasos.
O ponto se tornou alvo de arrombamentos, roubos e depredações ao longo desses anos. Equipamentos de iluminação, telhas, cadeiras e fiações são alguns dos bens materiais furtados nas constantes invasões ao espaço.
Teatro Valdemar de Oliveira vive processo de depredação | Foto: TAP/CortesiaEm 7 de fevereiro de 2024, veio o episódio mais triste desse processo de degradação: o teatro foi atingido por um incêndio. O fogo se propagou principalmente pelas cadeiras remanescentes e entulhos jogados no local.
A Folha de Pernambuco foi ao teatro no dia e conversou com três pessoas em situação de rua que estavam dormindo no local quando o incêndio começou. Em entrevista, eles relataram que foram acordados pela fumaça e forte calor.
“A gente tava dormindo em uma cama quando a gente sentiu o calor e a fumaça fortes. A gente saiu do lugar de lá rápido, graças a Deus, e a gente não se machucou. Agora a gente não sabe o que vamos fazer, onde vamos ficar. Durmo aqui sabendo do perigo da estrutura, mas não tinha o que fazer”, disse Wilanmiscarlos da Silva, que à época tinha 21 anos.
Estrutura do Teatro Valdemar Oliveira após ser atingido por incêndio | Foto: Júnior Soares/Arquivo Folha de PernambucoO incêndio também causou indignação de artistas e da população em geral. Thiana Santos, neta de Valdemar de Oliveira, fundador do teatro, chegou a afirmar que o episódio provocou uma “tristeza profunda”.
“Peço desculpas aos meus ancestrais por não ter conseguido salvar o prédio, que desde a pandemia, obrigado a fechar as portas, começaram a acontecer as invasões e depredações. A impunidade e a impotência diante dos fatos e da falta de apoio público me deixou sem esperanças”, disse.
