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Do picadeiro às telas: patrimônio cultural vivo de Pernambuco é estrela do filme “Mambembe”

Do picadeiro às telas: patrimônio cultural vivo de Pernambuco é estrela do filme “Mambembe”


Margarida Pereira de Alcântara, que ostenta o nome artístico de Índia Morena, assumiu pela primeira vez o protagonismo nas telonas com o longa “Mambembe”, em cartaz nos cinemas brasileiros.

Mas a artista já dedicou mais de 70 de seus 82 anos ao circo e tem seus esforços reconhecidos publicamente por Pernambuco: ela é registrada como patrimônio cultural vivo do estado desde 2006.


O convite para viver um dos três papéis principais do filme de Fábio Meira — que mescla ficção e documentário ao retratar as desventuras de um topógrafo (Murilo Grossi) e seu encontro com mulheres do circo — veio do próprio diretor. Meira rodou oito estados do Norte e Nordeste atrás de picadeiros itinerantes que pudessem inspirar seu longa.


— Eu procurava artistas de circo que se parecessem com meu roteiro de ficção. E Índia e Madona Show (também retratada no filme) não se pareciam com essas personagens, mas eram tão fascinantes que mudei o projeto para que elas coubessem nele — conta o cineasta.


Índia Morena nutre uma relação profunda com o circo e faz seus próprios figurinos — Foto: Divulgação


Conhecida como A Dama do Circo de Pernambuco, Índia Morena administrou uma trupe própria por 43 anos, o Gran Circo Londres. Contorcionismo, trapézio voador, acrobacia e canto são habilidades que ela já exibiu ao “respeitável público”.


A artista circense faz parte da primeira leva de pessoas registradas como patrimônios culturais vivos de Pernambuco. O estado foi o primeiro do Brasil a adotar a iniciativa de oferecer cunho patrimonial a pessoas.

E reconhece anualmente dez novos mestres ou grupos dotados dos “conhecimentos ou das técnicas necessárias para a produção e para a preservação de aspectos da cultura tradicional ou popular de uma comunidade estabelecida no Estado de Pernambuco”, como observa a legislação. Atualmente, o estado tem 88 personalidades ou grupos em atividade registrados na categoria.


— A diplomação de Índia Morena como patrimônio vivo de Pernambuco consagra a trajetória de uma artista referência do circo tradicional — exalta Renata Borba, presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.


Foi a artista circense que tomou a iniciativa de procurar o processo de seleção.


— Eu me inscrevi e, quando fui ver, meu nome tinha saído no jornal. E aí virei patrimônio vivo, ganhei diploma de notório saber em cultura popular, foi uma alegria imensa — conta ela.


Do picadeiro às telas: patrimônio cultural vivo de Pernambuco é estrela do filme Do picadeiro às telas: patrimônio cultural vivo de Pernambuco é estrela do filme “Mambembe” // Instagram/Reprodução


Da lama ao picadeiro

Ainda criança, era catando siris e caranguejos nos manguezais de Recife, sua cidade natal, que Índia Morena ajudava a garantir a renda da família. Até que, aos 9 anos, a menina viu uma nova oportunidade num circo que passava pelo seu bairro, Afogados. Em 1952, O Circo Democratas promoveu um show de calouros numa matinê infantil próxima à sua casa. E ofereceu um par de sapatos e um corte de tecido para quem cantasse melhor segundo a avaliação do público. A menina, que acabara de perder o pai, morto num acidente, enfrentava dificuldades financeiras na casa em que vivia com a mãe e os cinco irmãos.


— Eu fui escondida da minha mãe, entrei por debaixo da lona e, na hora que chamaram para cantar, subi no palco. Eu fui muito vaiada e recebi várias ofensas, mas pedi ao locutor para dar uma palavra e disse: “Eu já usei meia de seda e sapato colegial, mas hoje eu não tenho nada porque eu não tenho pai. Vocês que têm pai, zelem por ele. E, se eu ando assim e sou isso tudo que vocês estão dizendo, é para que meus irmãos não vão na casa de vocês pedir uma colher de açúcar.” Aí o circo veio abaixo com chuva de aplausos — conta a artista.


Índia Morena cantou em seguida a música “Coração materno”, de Vicente Celestino, e, mais uma vez, foi ovacionada pelo público, que a fez vencedora do concurso. Ela pôde fazer bom uso do sapato e do tecido, que rendeu um vestido para a menina e suas duas irmãs. E mais do que isso: dali ficou uma chama de amor pelo circo a ponto de, no ano seguinte, com apenas 10 anos, a menina ver uma outra companhia por sua cidade, o Circo Itaquatiara, e decidir que era nos picadeiros que queria construir sua vida.




— Fui lá no circo e vi uma menina fazendo contorcionismo. O nome dessa menina era Linda Moreno. Quando vi o show, pensei: “Vou-me embora nesse circo”, porque o que ela fazia ali no circo eu já praticava em casa sozinha — lembra Índia Morena.


Para ir atrás do sonho, a menina teve uma ideia para convencer a mãe a deixá-la partir em turnê com o Itaquatiara: chamou a dona do circo para ser a sua madrinha de Crisma. O plano deu certo, ela largou o trabalho no mangue e viajou com a trupe, começando sua vida de artista.


Ao longo da carreira, os talentos de Índia Morena já foram exibidos não só em diversos cantos do Brasil, mas também no exterior: EUA, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia são países que já viram Índia Morena se apresentar. Os números foram apresentados por diversos circos ao longo de sua trajetória, com destaque para o Gran Bartolo, o Itaquatiara e o Edson. Este último viria a ser transformado em seu próprio circo.


Em 1977, a artista recebeu o que restou das propriedades do Circo Edson, que havia falido, como pagamento por seu trabalho na companhia. Ela e o marido, Maviael Ribeiro, reergueram as lonas e criaram o Gran Londres Circo, onde Índia Morena pôde colocar em prática tudo o que aprendeu nas duas décadas que já acumulava de carreira aos 34 anos. Reconhecida como a melhor contorcionista de Pernambuco, passou a se dedicar ao canto e à apresentação de espetáculos, o que tem a honra de fazer até hoje ocasionalmente.


O grupo circulava pela Região Metropolitana de Pernambuco e esteve em atividade por mais de 40 anos. As portas do circo foram fechadas em 2020, quando a mãe de Índia Morena adoeceu e ela decidiu vender a companhia. Agora, a artista circense também está organizando um museu sobre sua vida, num espaço anexo à sua casa, em Jaboatão dos Guararapes, em Recife.


Associação circense, Patrimônio Vivo e atividades públicas

Quando completou 40 anos de carreira, em 1993, Margarida e seu marido fundaram a Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe). A organização atua em defesa de circenses do estado e organiza acervo de materiais das trupes disponibilizados por seus integrantes.


Essa foi uma das ações que a fizeram ganhar notoriedade para se tornar patrimônio vivo pernambucano. Atualmente, o estado tem 88 personalidades ou grupos em atividade registrados nessa categoria. A candidatura ocorre através de um edital público e os nomes são escolhidos por um conselho da Fundarpe, ligada à Secretaria de Cultura estadual. Os vencedores devem cumprir atividades estabelecidas pela pasta, determinadas de acordo com os seus saberes. Para isso, os patrimônios recebem uma bolsa mensal, que é de R$ 2. 479,41 para artistas individuais e de R$ 4.958,85 para coletivos.


A maioria das atividades profissionais atuais de Índia giram em torno de seus compromissos enquanto patrimônio. Ela se dedica, sobretudo, a palestrar e oferecer oficinas em escolas públicas. Integra também eventos culturais como Festival de Inverno de Garanhuns, que ajudou a fundar, e o festival Pernambuco Meu País. Além disso, está organizando um museu sobre a sua vida, ainda sem previsão de abertura, em um espaço anexo à sua casa, em Jaboatão dos Guarapares, em Recife.


Protagonismo no Cinema

Feliz com sua estreia nas telonas, Índia revela que essa não é a sua primeira vez no cinema. Ela contou que participou, como elenco de apoio, do aclamado Auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes, que adaptou a peça teatral – de mesmo nome – de Ariano Suassuna, por quem Índia guarda uma grande admiração.


Além da sessão especial no Cinesystem Botafogo no domingo, “Mambembe” está em cartaz em São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Goiânia (GO), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB) e Manaus (AM).

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