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Replay revisita “Exagerado” e entrega Cazuza à inquietação de uma nova geração

Replay revisita “Exagerado” e entrega Cazuza à inquietação de uma nova geração


Quatro décadas depois de incendiar o rock brasileiro com versos de urgência, desejo e inconformismo, o álbum “Exagerado” volta a circular através de novas vozes.


A nova temporada do projeto Replay, que estreia nesta terça (9), às 21h, no Canal BIS/Globoplay, revisita integralmente o álbum “Exagerado” por meio de dez releituras assinadas por nomes da música brasileira contemporânea.


As versões já estão disponíveis nas plataformas digitais em formato de álbum.




Com direção geral de José Tapajós e direção artística de Anna Butler e Pablo Marques, a proposta reúne artistas de diferentes linguagens e gerações, como Ludmilla, Mateus Fazeno Rock, Urias, Jadsa, Johnny Hooker, Catto, Maria Beraldo, Getúlio Abelha, Raquel Virginia e Thalin.


Cada episódio da série acompanha o processo criativo por trás das recriações e apresenta performances inéditas das faixas.


A proposta vai além da reverência. Em vez de reproduzir os arranjos originais, o Replay convida cada participante a atravessar as canções com sua própria linguagem estética, transformando o álbum em um encontro entre diferentes tempos da música brasileira.


Segundo José Tapajós, a escolha do disco surgiu da combinação entre relevância histórica e permanência cultural.


“Quando percebemos que 2025 marcava os 40 anos de ‘Exagerado’, tudo fez muito sentido. Era um álbum emblemático, que ajudou a consolidar a carreira solo do Cazuza e que continua extremamente presente no imaginário popular”, afirma.


Para ele, a iniciativa também busca ampliar o olhar sobre uma obra frequentemente resumida aos seus maiores sucessos.


“Queríamos revisitar o disco na íntegra e mostrar que ele vai muito além da faixa-título. É um álbum cheio de nuances, de grandes canções e de um compositor em plena ebulição criativa.”


Homenagem sem nostalgia

Mais do que celebrar um clássico, a intenção era propor que novos artistas estabelecessem um diálogo direto com a obra.


“A escolha do elenco passou muito pela ideia de evitar caminhos óbvios”, conta Tapajós, ao explicar que a curadoria procurou intérpretes capazes de dialogar com o espírito transgressor do homenageado, sem necessariamente terem construído suas trajetórias a partir dele.


“Queríamos reunir artistas que carregassem um pouco da ousadia que o Cazuza representava na década de 1980 (…) não buscávamos especialistas na obra dele, mas pessoas capazes de estabelecer um diálogo vivo com aquelas músicas.”


Essa ousadia que Cazuza representava também se traduz em liberdade artística, e esse foi um dos pilares da produção do “Replay – Exagerado”: a autonomia concedida aos convidados.


Após os convites e a definição das faixas, a produção praticamente saiu de cena e os músicos receberam liberdade total para construir suas versões.


“A gente não pede referências nem direciona os caminhos criativos. O artista recebe a música e devolve sua leitura”, resume Tapajós.


O resultado é um mosaico sonoro em que soul, R&B, blues, experimentação, música eletrônica e performance deram outros contornos e sentidos para as canções de Cazuza.


O blues de Fortaleza encontra “Medieval II”

Essa abordagem produz resultados bastante distintos. Entre eles, está “Medieval II”, recriada por Mateus Fazeno Rock, que estrela o primeiro episódio da temporada.


O artista cearense conta que a ligação com a canção vem da adolescência, quando descobria o rock brasileiro enquanto aprendia violão.


“As músicas dele estavam sempre presentes. Faziam parte desses meus primeiros encontros com a música, mesmo antes de eu compreender toda a dimensão da obra dele.”


Quando recebeu o convite para integrar o projeto, a escolha da faixa veio imediatamente. “Eu já sabia exatamente qual música queria gravar. Falei na hora: ‘Topo, mas quero fazer Medieval II’.”


Ao lado de músicos de Fortaleza, Mateus deslocou a canção para um território inspirado pelo blues e pela tradição da música negra. O andamento desacelerado amplia o peso das imagens e das palavras escritas por Cazuza.


“Conseguimos revelar uma energia diferente dela, sem perder a força original. Estou realmente muito orgulhoso do caminho que encontramos para essa releitura”, diz.



Manifesto de sobrevivência

Uma das recriações mais radicais do projeto surge em “Desastre Mental”, totalmente desconstruída por Maria Beraldo.


Embora não tenha sido uma música inicialmente próxima de seu repertório afetivo, a artista encontrou nela novas camadas de significado ao revisitar a trajetória de Cazuza e sua importância para a comunidade LGBTQIAPN+.


“Ele faz parte da nossa cultura. Tenho uma relação íntima com ele nesse sentido. E também é uma pessoa muito importante para a comunidade queer.”


Na leitura construída para o Replay, a canção deixa de ser apenas uma narrativa amorosa e assume contornos políticos.


“Acabei entendendo essa música como uma espécie de hino LGBT. Para nós, permanecer vivos é algo muito importante. Quando ele canta que somos sobreviventes de um desastre mental, essa frase ganha um significado muito forte.”


O arranjo minimalista, apoiado em voz, baixo acústico e trombone, amplia a dimensão performática e experimental da interpretação. “É uma maneira de trazer o Cazuza para o presente, de fazer com que ele continue vivo hoje”, afirma.


Outras releituras que merecem destaque em “Replay – Exagerado” são “Cúmplice”, que ganhou de Urias uma versão menos pista de dança e mais onirismo;


“Mal Nenhum”, originalmente um blues, ganhou de Jadsa uma levada hip hop com pitadas de tambores de candomblé;


“Boas Vindas” ganha pegada de forró eletrônico com Getúlio Abelha; além do single que anunciou o projeto, a faixa-título “Exagerado”, que ganhou vestimenta R&B na voz de Ludmilla.

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