RIO DE JANEIRO – Durante um media briefing dedicado aos temas Safety and Operations na Assembleia Geral Anual (AGM) da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), realizada no Rio de Janeiro, Markus Ruediger, vice-presidente sênior de Safety, Security and Operations, e Nick Careen, vice-presidente sênior de Operations, Safety and Security, respondem a questionamentos da imprensa internacional sobre alguns dos principais desafios enfrentados atualmente pela aviação.
Ao longo da conversa, os executivos abordam desde o comportamento de passageiros durante evacuações de emergência até operações em regiões afetadas por conflitos armados, passando pela segurança relacionada ao transporte de baterias de lítio, gestão de riscos, acessibilidade e consumo excessivo de álcool nos aeroportos e aeronaves. Um dos primeiros temas discutidos envolve a reação dos passageiros durante evacuações. A questão ganha relevância após diversos episódios registrados nos últimos anos mostrarem passageiros tentando retirar bagagens dos compartimentos superiores antes de deixar a aeronave.
Ao comentar o assunto, os executivos da IATA destacam que as investigações históricas não estabelecem uma relação direta entre mortes em evacuações e o ato de recuperar pertences pessoais. Eles relatam que já houve perda de vidas por inalação de fumaça e outros fatores, mas que nunca foi determinado que isso estivesse associado ao fato de passageiros se levantarem ou retirarem bagagens durante a evacuação. Questionados sobre a possibilidade de criação de penalidades mais rígidas para passageiros que descumprem instruções da tripulação, os representantes da entidade reconhecem que sanções podem gerar resultados, mas observam que sua eficácia depende da aplicação consistente.
Eles acrescentam que medidas punitivas tendem a perder força quando não são aplicadas regularmente. Segundo a IATA, a prioridade continua sendo investir em conscientização e educação dos passageiros. “Vamos começar pela educação e verificar se isso produz mudanças de comportamento. Há reguladores interessados em estabelecer requisitos mais claros para garantir que a evacuação em 90 segundos seja cumprida.”
Segurança operacional na aviação diante de novos desafios globais
Outro tema que desperta atenção durante o briefing envolve comportamentos observados em determinados mercados da região Ásia-Pacífico. Jornalistas mencionam conteúdos divulgados em redes sociais que incentivam passageiros a proteger bagagens e pertences em situações de emergência. Os representantes da IATA revelam que a entidade promove recentemente uma reunião específica sobre esse assunto em Doha, reunindo cerca de 30 companhias aéreas. Segundo eles, algumas empresas conseguem lidar melhor com a situação e compartilham experiências com outras transportadoras. “Estamos tentando entender as melhores formas de gerenciar esse problema.” Os executivos ressaltam que ainda não há previsão de novas intervenções por parte da IATA.
Questionados sobre diferenças na capacidade de determinados países para analisar riscos operacionais, os executivos evitam citar exemplos específicos. Eles reconhecem que alguns reguladores possuem sistemas mais desenvolvidos para compartilhar informações de segurança. “Temos autoridades como FAA e EASA que fornecem informações muito consistentes às companhias aéreas. Nem todos os países conseguem fazer isso da mesma maneira.”
Segundo os executivos, a indústria dispõe atualmente de sistemas que permitem compartilhar rapidamente informações críticas entre governos, reguladores e companhias aéreas. “Se um país emitir um aviso para suas transportadoras, todas as companhias poderão ter acesso a essa informação.” Quando divergências surgem entre avaliações feitas por diferentes governos, a IATA busca compreender os critérios utilizados. “Nós conversamos com essas autoridades para entender como avaliaram o risco e por que chegaram a conclusões diferentes.”
Uma jornalista questiona se a entidade trabalha junto às companhias aéreas para ampliar o acesso a serviços de saúde mental para profissionais que atuam em ambientes marcados por conflitos e instabilidade. Os executivos respondem que a implementação dessas iniciativas depende das próprias empresas.
Ainda sobre a região, a imprensa pergunta como a IATA avalia decisões tomadas por algumas companhias que mantiveram operações em determinados corredores aéreos considerados seguros e depois suspenderam voos diante do agravamento do cenário. Segundo os executivos, a sequência de decisões demonstra que os sistemas de gestão de risco funcionam conforme previsto. Os representantes da entidade observam que operações humanitárias e voos de repatriação seguem uma lógica diferente da aviação comercial. “Precisamos ter capacidade para retirar pessoas dessas regiões. Isso não significa necessariamente manter uma programação comercial.”
Ao comentar episódios envolvendo ataques próximos a aeroportos, os executivos reforçam que a comunicação entre governos e operadores é um dos fatores mais importantes para a segurança. “Se determinados países não informam que haverá uma ação militar próxima ao aeroporto, as companhias continuam planejando operações normais.” Segundo eles, as empresas suspenderam operações quando as condições deixaram de ser consideradas adequadas. Os representantes da IATA destacam ainda que algumas regiões do espaço aéreo continuam fechadas devido aos conflitos em andamento.
Passageiros, conforto, segurança e acessibilidade
Outro momento do briefing trata de um acidente em solo ocorrido nos Estados Unidos. Um dos executivos relata ter acompanhado o caso de perto por conhecer pessoas envolvidas no episódio. “Quando algo assim acontece, o impacto é muito forte.” Embora a investigação ainda não tenha sido concluída, ele menciona informações preliminares indicando que o veículo envolvido não possuía sensores específicos e que não havia exigência regulatória para sua instalação. Segundo ele, a principal contribuição virá das conclusões da investigação conduzida pelas autoridades americanas.
A acessibilidade também entra na pauta. Ao responder a uma pergunta sobre procedimentos para passageiros com mobilidade reduzida durante evacuações, os executivos explicam que existem protocolos específicos para essas situações. “Normalmente essas pessoas permanecem em suas cadeiras e a tripulação auxilia na movimentação. Existem procedimentos para isso.”
Já em relação aos conflitos entre passageiros causados pela reclinação de assentos, a IATA afirma que não possui uma política específica sobre o tema. Algumas companhias optam por limitar a reclinação, especialmente no segmento de baixo custo. “Essa decisão cabe a cada companhia aérea.” Para a entidade, outros comportamentos representam uma preocupação maior. “A reclinação do assento não é um problema, mas o consumo excessivo de álcool parece ser.”
Nos minutos finais do briefing, a discussão se volta para as baterias de lítio e os power banks. Segundo os executivos, a campanha de conscientização lançada pela indústria vem apresentando resultados. “As empresas ficaram muito melhores em fornecer informações aos passageiros. Hoje ouvimos anúncios a bordo que não existiam anteriormente.” A mesma estratégia também vem sendo aplicada para conscientizar passageiros sobre turbulência e uso correto do cinto de segurança.
