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Poucos filmes recentes da Netflix tratam a morte com tanta doçura e assombro

Poucos filmes recentes da Netflix tratam a morte com tanta doçura e assombro

Cada dia tem uma angústia própria e cada tempo, seus desesperos próprios. Chega um momento em que ou nos comprometemos com as intenções certas, ou perdemos o bonde da vida, que não costuma passar duas vezes pelo mesmo ponto — o trem descarrilado da morte, ao contrário, colhe-nos sem prévio aviso uma, duas, mil vezes numa mesma existência. Nossos dias e noites neste plano são um incessante vir a ser, ocasiões que temos de nos forçar a descobrir o melhor remédio para cada novo mal avassalador que impõe-nos o mundo, imagem que depressa vai ganhando corpo no ótimo “Risa e o Telefone do Vento”. Poeticamente, o argentino Juan Cabral chega à justa orquestração entre fantasia e crueza, com seus personagens oníricos, mas que sangram.

Os outros

Cabral e o corroteirista Pablo Minces usam a realidade como matéria-prima de uma história que molda-se no sobrenatural, dando azo a um conto cuja estranha beleza ninguém questiona. Os tais telefones do vento mencionados no título podem ser um dos tantos artificialismos deste insano século 21, mas aqui ficam, excluídas as referências tecnológicas, com um jeito de fábula medieval que consegue hipnotizar a audiência. Após o tsunami que varreu o Japão e inundou a Usina Nuclear de Fukushima, em 11 de março de 2011, surgiram cabines telefônicas sem função prática, destinadas aos que tivessem vontade de “ligar” para seus mortos. Em Ushuaia, na Patagônia, extremo sul do continente, um incêndio matou o pai de Risa, que se consola recorrendo a essas chamadas ao além-túmulo como uma dolorosa catarse. Aos poucos, o diretor faz de seu segundo longa uma crônica agridoce que joga luz sobre como a morte e as tragédias impactam um espírito ainda por se formar. Elena Romero faz de Risa uma mártir estoica, mas com vocação para aquela felicidade tão peculiar, nascida da solidão que vira força.



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