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Uma estrela de “Sex and the City” lidera no Prime Video uma comédia que envelheceu de forma curiosa

Uma estrela de “Sex and the City” lidera no Prime Video uma comédia que envelheceu de forma curiosa

“Não Sei Como Ela Consegue” parte de uma pergunta que continua bastante reconhecível: quanto custa, para uma mulher, ser eficiente no trabalho, presente em casa, atenta aos filhos, disponível no casamento e ainda parecer emocionalmente estável enquanto tudo acontece ao mesmo tempo? Kate Reddy, interpretada por Sarah Jessica Parker, trabalha em uma empresa financeira, é mãe, esposa e vive tentando impedir que sua rotina desande. O filme percebe a pressão dessa engrenagem. O que não consegue é levá-la muito longe. Em vez de transformar esse incômodo em uma comédia mais mordaz sobre trabalho, maternidade e casamento, prefere acomodá-lo em conflitos previsíveis, simpáticos em alguns momentos, mas menos contundentes do que o tema permitiria.

Kate é apresentada como uma mulher em atraso permanente. Há reuniões, viagens, filhos, tarefas domésticas, expectativas conjugais, cobranças profissionais e uma culpa que atravessa quase todas as decisões. O melhor do filme está em notar que o cansaço da personagem não vem apenas da quantidade de coisas que ela precisa fazer. Vem também da obrigação de lembrar, antecipar, compensar e se justificar. Ela precisa provar que a ambição não a torna menos mãe, que o trabalho não a torna menos esposa, que desejar crescer profissionalmente não deveria ser confundido com abandonar a família. Essa tensão é concreta, incômoda e ainda muito atual.

A conta invisível

Sarah Jessica Parker carrega boa parte de “Não Sei Como Ela Consegue” porque domina esse registro de personagem urbana, acelerada, ansiosa, sempre entre a tentativa de controle e a sensação de insuficiência. Sua presença dá ritmo a cenas que poderiam parecer ainda mais esquemáticas. Ela transmite exaustão sem pesar demais a mão, irritação sem quebrar o tom de comédia, fragilidade sem transformar Kate em vítima passiva. Há eficiência em sua atuação. O problema é que o filme se apoia demais nessa familiaridade, como se a imagem pública da atriz já resolvesse metade do conflito.

Essa aposta deixa a personagem menor do que poderia ser. Kate tem potencial para expor uma estrutura desigual, mas muitas vezes vira apenas a mulher sobrecarregada que corre de um compromisso a outro tentando impedir que a vida desmonte. O roteiro enxerga a injustiça, mas raramente a encara com mais rigor. A diferença entre as cobranças feitas a ela e aos homens ao redor está ali, mas aparece suavizada. Quando Richard, vivido por Greg Kinnear, também enfrenta pressões profissionais, o filme esboça uma tensão doméstica interessante. A comparação, porém, não avança. A vida dele pode ser difícil; a dela parece estar sempre sob julgamento.

Esse é um ponto decisivo. Kate não precisa apenas trabalhar bem. Precisa trabalhar bem sem parecer ausente. Não precisa apenas cuidar dos filhos. Precisa cuidar sem demonstrar ressentimento. Não precisa apenas manter o casamento. Precisa provar que a vida profissional não ameaça o espaço do marido nem a estabilidade da família. O filme percebe esse peso, mas costuma transformá-lo em situações de correria, pequenos constrangimentos e crises contornáveis. A comédia comunica a exaustão, sim, mas também reduz um problema estrutural a uma sequência de obstáculos de agenda.

Pierce Brosnan, como Jack Abelhammer, entra na história como uma figura de reconhecimento. Ele representa um ambiente em que Kate é vista antes como profissional competente do que como mãe culpada ou esposa em falta. A tensão entre os dois funciona melhor quando não é tratada apenas como ameaça romântica, mas como uma forma de alívio: perto dele, Kate parece menos obrigada a se explicar. Ainda assim, o filme conduz essa relação com cuidado excessivo. Há risco, mas pouca ambiguidade. Há desvio, mas não verdadeiro desequilíbrio. Tudo é organizado para mexer com a rotina da protagonista sem abalar demais a segurança da narrativa.

A direção de Douglas McGrath trabalha dentro de uma comédia comercial de superfície limpa, ritmo ágil e conflitos de fácil leitura. A lógica é acumular compromissos, telefonemas, viagens, cobranças familiares e demandas profissionais até que a rotina de Kate pareça uma máquina prestes a falhar. Em alguns momentos, esse acúmulo funciona. A sensação de sufocamento aparece. Em outros, a experiência da personagem vira quase uma planilha de problemas. Falta uma pausa mais incômoda, uma cena que deixe a contradição respirar, um instante em que Kate exista para além da função de representar a mulher que tenta dar conta de tudo.

O roteiro de Aline Brosh McKenna, adaptado do romance de Allison Pearson, sabe organizar conflitos claros e manter a história em movimento. O limite está menos na estrutura do que no alcance da abordagem. “Não Sei Como Ela Consegue” passa perto de temas fortes: carga mental, culpa materna, ambição feminina, divisão desigual de responsabilidades, privilégio e ambiente corporativo. Mas quase sempre retorna ao terreno seguro da conciliação individual. A impressão é que bastaria Kate ajustar melhor as peças da rotina para que a contradição se resolvesse. O incômodo maior, que envolve as regras desse jogo, fica em segundo plano.

Isso não torna o filme descartável. Há valor em uma comédia popular que reconhece o esgotamento feminino sem transformar tudo em drama pesado. Leveza não é defeito. O problema aparece quando ela vira proteção contra as consequências do próprio tema. “Não Sei Como Ela Consegue” fala de uma mulher exausta, mas parece desconfortável com a possibilidade de deixá-la realmente irritada, contraditória ou menos agradável. Kate poderia ser mais do que uma figura simpática tentando equilibrar pratos. Poderia ser uma personagem atravessada por frustrações mais duras, desejos menos organizados, impasses menos domesticados.

Vista hoje, a limitação do filme fica ainda mais visível. Não porque o assunto tenha perdido força, mas porque a discussão sobre trabalho, maternidade e gênero avançou para lugares que a obra não alcança. A pressão sobre mulheres que tentam conciliar carreira e família continua viva; talvez por isso o filme ainda tenha alguma ressonância. Mas a forma como ele organiza essa pressão soa tímida. Há pouca ironia contra o sistema que exige tanto de Kate. Há pouca curiosidade sobre quem se beneficia dessa disponibilidade permanente. Há pouca disposição para tratar a culpa não como traço individual, mas como mecanismo social.

A crítica mais justa a “Não Sei Como Ela Consegue” passa por esse descompasso. O filme identifica uma ferida cotidiana, mas escolhe um curativo leve demais. Sarah Jessica Parker torna a jornada mais fluida, e o elenco ao redor mantém a engrenagem funcionando sem grandes tropeços. Ainda assim, a obra se contenta com menos do que poderia. Prefere a simpatia à contundência, o conflito arrumado à contradição real, a comédia de superfície à observação mais cortante. O resultado é um filme que vê a sobrecarga feminina, mas não encontra força suficiente para discutir por que ela continua sendo cobrada como destino.



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