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Alban Lenoir transforma brutalidade em assinatura no novo fenômeno de ação da Netflix

Alban Lenoir transforma brutalidade em assinatura no novo fenômeno de ação da Netflix

“Bala Perdida 3” não finge ser outro filme. O terceiro capítulo da franquia dirigida por Guillaume Pierret sabe onde estão suas melhores armas: motores nervosos, pancadas secas, perseguições filmadas como confronto e um protagonista que parece mais confortável dentro do caos do que fora dele. Essa consciência joga a favor do longa. Também deixa suas fraquezas mais expostas. Como encerramento de uma trilogia, o filme ganha força quando acelera, bate e coloca seus personagens sob pressão. Quando precisa organizar motivações, relações e consequências, perde parte da firmeza.

Lino, interpretado por Alban Lenoir, continua sendo o eixo físico da série. Ele não é um personagem que se impõe por frases de efeito ou grandes explicações emocionais. Sua presença vem da resistência, da habilidade mecânica, do corpo marcado por brigas e fugas, da teimosia de quem transformou o acerto de contas em única rota possível. “Bala Perdida 3” entende essa natureza e não tenta sofisticá-la de modo artificial. Lino pensa com as mãos, com o volante, com o impulso de quem já passou há muito tempo do ponto em que seria possível recuar sem pagar um preço.

Essa escolha combina com o cinema que Pierret vem construindo desde “Bala Perdida”. A franquia nunca dependeu de elegância clássica, nem parece interessada em polir demais sua brutalidade. Seu território é outro: uma ação direta, apoiada na materialidade dos carros e na sensação de impacto. “Bala Perdida 3” preserva essa identidade. Os veículos não funcionam apenas como instrumentos de fuga ou perseguição; eles carregam a raiva, a urgência e a lógica de sobrevivência daquele mundo. Quando um carro avança, derrapa ou colide, o filme diz algo sobre Lino sem precisar colocar essa dor em palavras.

A direção encontra seus melhores momentos quando deixa a ação trabalhar sem enfeite. As perseguições têm peso porque não parecem existir apenas para cumprir uma obrigação do gênero. Elas nascem do conflito e carregam a brutalidade de um universo em que a lei já não oferece proteção confiável. A montagem busca velocidade, mas ainda permite acompanhar a geografia das cenas. O som dos motores, o choque das colisões e a fisicalidade das lutas sustentam uma tensão que vem menos da surpresa do que da insistência.

Alban Lenoir é decisivo para esse efeito. Ele dá a Lino uma dureza funcional, sem transformar o personagem em pose. Há cansaço em sua maneira de atravessar a trama, e esse detalhe importa. “Bala Perdida 3” não precisa tornar seu protagonista simpático o tempo inteiro; precisa torná-lo crível dentro de um ambiente em que a violência virou linguagem comum. Lenoir segura essa proposta com presença. Mesmo quando o roteiro empilha conflitos, sua atuação preserva uma linha emocional simples e reconhecível: Lino está sempre reagindo a uma perda, a uma traição, a uma dívida que continua aberta.

O problema é que o filme confia demais nessa energia para compensar uma construção narrativa irregular. Como capítulo final, “Bala Perdida 3” precisa retomar Areski, vivido por Nicolas Duvauchelle, lidar com corrupção policial, reposicionar alianças e oferecer algum sentido de fechamento ao percurso iniciado nos filmes anteriores. É muito material para uma estrutura que funciona melhor na compressão do que na explicação. Em alguns momentos, a trama parece correr atrás da própria urgência. Os personagens entram e saem como peças de uma engrenagem, nem sempre com espaço suficiente para ganhar densidade.

A dependência dos capítulos anteriores também pesa. Quem acompanhou “Bala Perdida” e “Bala Perdida 2” reconhece melhor o valor de certas relações e entende por que algumas contas ainda precisam ser acertadas. Quem chega agora encontra um filme já em movimento, pouco disposto a desacelerar para situar afetos, culpas e ressentimentos. A escolha preserva o ritmo, mas reduz a autonomia do longa. “Bala Perdida 3” quer ser conclusão, não porta de entrada. Ao assumir isso, aceita também certa dose de atropelo.

Fechamento Irregular

Mesmo assim, seria injusto reduzir o filme aos seus problemas de roteiro. A franquia encontrou sua identidade na ação física, e o terceiro capítulo honra esse pacto. Há uma honestidade quase mecânica na maneira como “Bala Perdida 3” se organiza: um homem movido pela vingança, carros preparados para o caos, instituições contaminadas e uma sucessão de colisões que aproximam justiça e destruição. O filme não é sutil, mas faz da falta de sutileza um método. Quando reduz tudo a deslocamento, impacto e sobrevivência, entrega seus trechos mais fortes.

A vingança, nesse sentido, funciona como motor e limite. Ela dá direção a Lino, concentra sua raiva e transforma cada perseguição em parte de uma rota emocional. Mas também estreita o campo dramático. O filme raramente se permite investigar o que sobra depois de tanta obstinação. Prefere seguir adiante, como se qualquer pausa ameaçasse quebrar seu pacto com o gênero. Essa opção mantém a narrativa em estado de pressão, mas deixa alguns conflitos mais funcionais do que realmente dramáticos. A dor existe, só que quase sempre aparece convertida em ação.

O elenco secundário sente esse desequilíbrio. Stéfi Celma e Gérard Lanvin ocupam posições importantes nessa rede de lealdades quebradas e traições, mas o filme nem sempre lhes oferece a mesma atenção dedicada à mecânica da perseguição. Nicolas Duvauchelle, como Areski, segue ligado ao centro moral da história, embora o roteiro às vezes trate sua presença mais como necessidade de fechamento do que como chance de aprofundar o confronto. “Bala Perdida 3” sabe quem precisa estar em cena, mas nem sempre encontra algo interessante para todos além de empurrar a trama até o próximo choque.

Ainda assim, dentro do catálogo da Netflix, o filme tem uma vantagem clara: não parece apenas mais um thriller de ação sem rosto. A trilogia construiu uma marca reconhecível, apoiada em carros, brutalidade seca e um protagonista definido por competência prática. Muitos filmes recentes do gênero tentam soar grandiosos e acabam parecidos entre si. “Bala Perdida 3” é menor em ambição dramática, mas mais firme em identidade. Essa diferença conta. O longa pode derrapar no excesso de amarrações, mas não perde completamente o controle do próprio estilo.

Como encerramento, o resultado é satisfatório sem ser redondo. O filme entrega uma sensação de fim, respeita a trajetória de Lino e preserva aquilo que fez a franquia encontrar público: ação direta, ritmo nervoso e uma fisicalidade que não depende apenas de pose visual. Faltou mais cuidado na costura dramática, especialmente na distribuição dos conflitos e na construção dos personagens que orbitam o protagonista. Mas há pulso. E, em “Bala Perdida 3”, pulso conta bastante.

O longa é melhor quando para de tentar explicar todos os danos e simplesmente coloca seus personagens em rota de colisão. Essa pode ser uma limitação, mas também é sua forma de coerência. “Bala Perdida 3” não fecha a trilogia com refinamento. Fecha com motor, pancada e convicção suficiente para sustentar a própria brutalidade. O roteiro derrapa, sim. A ação, quase sempre, segura a pista.



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