Tom Vazzana, diretor de desenvolvimento criativo do Walt Disney World Live Entertainment (Felipe Abílio/MeE)

A Disney está passando por ajustes estratégicos que prometem impactar diretamente a experiência nos parques. Em apresentação no escritório da Disney em São Paulo, o diretor de desenvolvimento criativo do Walt Disney World Live Entertainment, Tom Vazzana, explicou como as decisões são tomadas e por que algumas histórias precisam evoluir.

Logo no início, ele resumiu o peso da função. “Somos responsáveis por desenvolver o material mais maravilhoso, mais mágico e também o mais relevante e inclusivo do mundo.”

Nada é feito de forma isolada. “O departamento de produções de vídeo tem muita colaboração comigo. Temos diretores de show, roteiristas e todo o departamento de música. Eu sou muito afortunado por fazer parte desse grupo.”

1. Fantasmic foi alterado após reflexão na pandemia

Uma das mudanças mais concretas aconteceu no espetáculo Fantasmic. “A pandemia nos deu uma oportunidade maravilhosa de olhar para o que estava errado.”

O período, segundo ele, obrigou a equipe a rever escolhas criativas. “Removemos seis minutos do show e colocamos seis minutos de pessoas que querem mostrar seus eus autênticos.”

A alteração substituiu uma narrativa que já não representava o que desejavam comunicar. “Antes contávamos uma história que não era realmente uma história da América do Norte, mas uma versão romantizada. Nós amávamos, mas por que mostrar se podemos consertar?”

Personagens como Elsa, Moana e Mulan passaram a integrar a nova versão. E ele reforçou o princípio que guiou a mudança: “Ser autêntico e mágico é melhor do que apenas ser mágico.”

O escritório da Disney Brasil recebeu comunicadores e jornalistas para o encontro (Felipe Abílio/MeE)
O escritório da Disney Brasil recebeu comunicadores e jornalistas para o encontro (Felipe Abílio/MeE)

2. Histórias que deixam de ser relevantes

Para Vazzana, algumas atrações precisam evoluir com o tempo. “Algumas histórias se tornam obsoletas e a mensagem por trás delas não é mais relevante.”

Ele citou a transformação de Splash Mountain como exemplo. “Tiana é relevante. O espírito empreendedor dela é relevante.”

A estratégia, segundo ele, é unir estruturas já consolidadas a narrativas mais atuais. “Foi uma combinação perfeita de reimaginar a atração com uma propriedade intelectual que fala com o público de hoje.”

3. O caso Aerosmith

Ao falar sobre renovação da Rock ‘n’ Roller Coaster Starring Aerosmith, ele abordou a dificuldade de manter certas marcas conectadas às novas gerações, mencionando o Aerosmith. “Pessoas mais jovens não se relacionam com Aerosmith”.

Durante uma sessão criativa, novas possibilidades foram discutidas. “Tivemos uma sessão de brainstorming sobre substituir Aerosmith. Falamos de bandas atuais. E alguém disse, quando estávamos saindo da sala, que os Muppets tinham uma banda.”

A lembrança dos Muppets abriu uma nova possibilidade. Não era apenas trocar uma banda por outra. Era pensar em algo com potencial mais duradouro, menos preso ao momento musical específico.

Ao relatar o episódio, ele demonstrou como decisões desse porte não são tomadas de forma impulsiva. Existe análise de relevância, de permanência cultural e de identificação com diferentes faixas etárias.

A questão central, segundo ele, é evitar que a atração envelheça junto com uma única referência artística. A preocupação não é apagar o passado, mas garantir que a experiência continue viva para quem chega agora.

4. Disney Starlight nasce da colaboração

Sobre o desfile noturno Disney Starlight, ele detalhou o método. “Eu coloco equipes juntas. Digo: quero um desfile noturno. Precisa ter luzes, precisa ter relevância, precisa ter uma grande trilha sonora. E então digo: vão.”

Após dois dias intensos de trabalho, as ideias são refinadas. “Essa é a beleza do meu trabalho. Eu posso curar.” Ele explicou que mantém todos envolvidos. “Eu não acredito em jogar ideias fora. Eu acredito em realocar pessoas para outras equipes. Todo mundo traz valor.”

O time da Disney posou junto durante o evento (Felipe Abílio/MeE)
O time da Disney posou junto durante o evento (Felipe Abílio/MeE)

5. Tecnologia integrada à experiência

Ao falar sobre o comportamento do público atual, ele foi direto. “Vivemos em um mundo hiperconectado. As crianças veem tudo por meio de telas.” Para ele, ignorar isso seria um erro estratégico.

Em vez de tentar afastar o visitante do celular, a decisão foi assumir essa realidade. “Nós abraçamos isso.”

Ele explicou que a equipe passou a pensar em como o aparelho pode fazer parte da narrativa da atração, e não funcionar como distração paralela. “Como usamos o telefone durante isso? Nós programamos os momentos.” A ideia é criar interações planejadas, sincronizadas com o que acontece no espaço físico.

Isso inclui estudar notificações, ativações específicas e recursos digitais que ampliem a experiência enquanto o visitante aguarda ou participa de determinada atração. Segundo ele, o objetivo é transformar a jornada inteira em algo contínuo.

“Queremos que o tempo de espera não seja mais espera, mas parte da próxima experiência.”

Ele também mencionou o uso de dispositivos vestíveis distribuídos aos visitantes, como os relógios digitais utilizados nos parques, que permitem integração com atrações, reservas e interações personalizadas ao longo do dia. Esses equipamentos ajudam a registrar preferências, liberar acessos e criar pequenos momentos de surpresa durante o percurso.

A lógica, segundo ele, é simples: se a tecnologia já faz parte da rotina das famílias, ela pode ser usada para aprofundar a imersão, organizar fluxos e criar conexões mais personalizadas dentro do parque.

6. Inclusão como responsabilidade

Ao tratar de diversidade, ele não falou em tendência ou estratégia de mercado. Falou em dever. Para ele, inclusão não é camada estética, é base criativa.

“Nós promovemos diversidade nos nossos shows. Promovemos múltiplas línguas nos nossos shows. E ainda temos muito a avançar.”

A fala indica que o trabalho não está concluído. Segundo ele, o objetivo é refletir dentro do palco o mundo real que existe fora dos portões do parque. Isso passa por elenco, repertório, narrativas e escolhas de personagens.

Ele reforçou que a experiência precisa permitir que diferentes públicos se reconheçam nas histórias contadas. Não apenas como espectadores, mas como parte legítima daquele universo.

“É responsabilidade do Walt Disney World e da Disney Company ajudar nossos visitantes a viverem seus eus inclusivos, baseados em gentileza e alegria.”

Ao usar a palavra responsabilidade, ele amplia o papel da empresa. Não se trata apenas de entreter por algumas horas, mas de criar ambientes onde crianças e famílias sintam que pertencem, independentemente de idioma, origem ou condição.

Para ele, quando uma criança se vê representada no palco, a experiência deixa de ser apenas espetáculo. Passa a ser identificação. E é aí que a magia ganha outro significado

7. O momento que realmente importa

Depois de falar sobre tecnologia, atualização de atrações e decisões estratégicas, ele reduziu tudo a uma cena simples. O encontro entre uma criança e um personagem. “Quando uma criança encontra um personagem e tem uma conexão que vai além do que eu posso sentir, eu choro.”

Ele explicou que esse tipo de momento muda completamente a dimensão do trabalho. Não é sobre efeitos especiais ou orçamento. É sobre reação humana. Ao lembrar de experiências com crianças com diferentes habilidades, a fala ganhou outro peso. “Isso mudou minha vida. Isso deixa de ser trabalho. É simplesmente estar vivo.”

Segundo ele, são nesses encontros que a Disney entende se acertou ou não. Não é na estreia, não é na crítica especializada, não é na tecnologia empregada. É no impacto individual. Ele ainda lançou uma pergunta que norteia as decisões criativas da equipe. “Quando você vai para casa, qual é a conversa ao redor da mesa? Qual foi o sentimento emocional?”

A preocupação, segundo ele, não termina quando o visitante sai do parque. A meta é que a experiência continue na memória, nas histórias contadas dias depois, na emoção que permanece. Para Vazzana, é nesse instante silencioso, longe do palco, que a magia realmente acontece.

7 bastidores e mudanças na Disney revelados pelo diretor criativo que decide o futuro dos parques
Mickey e Minnie apareceram para receber os convidados no final da apresentação (Felipe Abílio/MeE)