Após início fraco, bares apostam na Páscoa para recuperar caixa (Freepik)

A Semana Santa chega com cara de respiro para bares e restaurantes de São Paulo. Depois de meses de movimento irregular e contas apertadas, o setor começa a enxergar no feriado uma chance real de recuperação. Levantamento da Abrasel SP mostra que 63% dos estabelecimentos projetam aumento no faturamento durante o período.

O número ganha peso quando colocado ao lado do cenário recente. Em fevereiro, 36% das empresas operaram no prejuízo, enquanto apenas 26% registraram lucro. Outros 38% ficaram na estabilidade, tentando equilibrar receitas e despesas em um ambiente ainda desafiador. O dado escancara uma realidade conhecida por quem vive do salão cheio: vender mais nem sempre significa lucrar mais.

Crescimento esperado, mas com cautela

Apesar do otimismo, o avanço previsto vem em diferentes ritmos. Entre os empresários, 22% esperam crescimento mais tímido, de até 5%. Já 26% projetam alta entre 6% e 10%, o que representa um ganho mais consistente.

Uma parcela menor vê espaço para resultados mais robustos. Cerca de 9% acreditam em crescimento de até 20%, enquanto 4% falam em avanço que pode chegar a 50%. Há ainda um grupo mais confiante, embora pequeno, que projeta números acima desse patamar. Do outro lado, 19% esperam estabilidade e 7% ainda trabalham com a possibilidade de queda.

Esse retrato mostra um setor que tenta equilibrar expectativa e realidade. Existe esperança, mas também prudência. Ninguém esqueceu como foi o início do ano.

Tradição que movimenta o caixa

O principal motor desse possível crescimento está no prato. Durante a Semana Santa, o consumo de peixes e frutos do mar dispara, impulsionado por tradição cultural e religiosa. A indústria projeta cerca de 350 mil toneladas de pescado consumidas até a Páscoa, um aumento de 8% em relação ao ano anterior.

Nas peixarias, o impacto costuma ser ainda mais evidente. As vendas podem crescer até 40% na semana do feriado. Bacalhau, salmão e tilápia lideram a preferência dos consumidores, mas nem sempre cabem no orçamento de quem precisa manter a operação saudável.

Cardápio virou ferramenta de gestão

Montar o cardápio deixou de ser apenas uma questão gastronômica. Hoje, é também uma decisão financeira. Com o custo dos insumos pressionando as margens, muitos restaurantes estão revendo receitas e buscando alternativas mais viáveis.

O chef consultor Regis Sassaki resume essa mudança de mentalidade ao afirmar que “a adaptação do cardápio com insumos mais acessíveis permite manter a qualidade percebida e ampliar o alcance do público”.

Na prática, isso significa substituir ingredientes caros por opções mais econômicas sem comprometer a experiência. O salmão, por exemplo, pode dar lugar à truta ou à tilápia. Já o bacalhau, tradicional na data, encontra concorrência em peixes como linguado, polaca e outras opções salgadas com custo menor.

Peixes de água doce também ganham protagonismo, assim como espécies da safra, que tendem a apresentar melhor relação entre preço e qualidade.

Diferença de preço pesa na decisão

A escolha não é apenas técnica, é estratégica. Enquanto o bacalhau pode ultrapassar os R$ 200 por quilo, alternativas como o tambaqui partem de cerca de R$ 20. Em um cenário de margem apertada, essa diferença impacta diretamente o resultado final.

Além da troca de ingredientes, muitos estabelecimentos estão mudando a forma de compra. Negociar direto com produtores ou adquirir o peixe inteiro são práticas que ajudam a reduzir custos e aumentar o aproveitamento dos insumos. São decisões que acontecem nos bastidores, mas que refletem diretamente no preço final e na percepção do cliente.

Chocolate entra como aliado

Se os pratos principais garantem o fluxo, as sobremesas ajudam a aumentar o ticket médio. E, na Páscoa, o chocolate entra quase como um protagonista silencioso. Sobremesas temáticas funcionam como complemento natural da refeição e ampliam o consumo. Para muitos estabelecimentos, esse detalhe pode representar uma diferença importante no fechamento do caixa.

Um momento que pode definir o trimestre

A Semana Santa não resolve todos os problemas do setor, mas pode marcar o início de uma virada. Com planejamento, controle de custos e leitura mais afiada do comportamento do consumidor, bares e restaurantes tentam transformar o feriado em algo mais do que um pico pontual de vendas.

A ideia é usar esse momento como impulso para atravessar o segundo trimestre com mais estabilidade e menos pressão.

O que está em jogo não é apenas o movimento de alguns dias. É a capacidade de adaptação de um setor inteiro que aprendeu, na prática, que sobreviver também passa por saber mudar rápido.