A palavra “intraduzível” costuma ser entendida, no uso comum, como “não dá para traduzir”. Na tradução e na linguística, porém, o sentido é mais restrito. Em geral, o termo aponta para situações em que não existe uma equivalência direta — uma troca simples de uma palavra por outra — capaz de manter, ao mesmo tempo, o mesmo alcance de significado e o mesmo efeito de uso. A tradução pode existir, mas não como substituição automática. Para preservar o que a palavra faz no idioma de origem, a solução frequentemente exige uma expressão maior, um ajuste de registro, uma explicação ou uma decisão contextual.
Essa distinção ajuda a entender por que tradutores automáticos e resultados de busca conseguem oferecer uma “tradução” e, ainda assim, a palavra continuar sendo chamada de intraduzível. O sistema entrega um aproximador funcional, guiado por frequência e proximidade de sentido. Já a equivalência exigida por tradução literária, jornalística ou cultural precisa carregar mais coisas ao mesmo tempo: o sentido básico, o tom, a situação social em que a palavra circula, as conotações e a imagem mental que ela convoca.
Dicionários bilíngues são ferramentas legítimas para orientar entendimento, mas nem sempre capturam o uso social e a carga pragmática de uma palavra. “Cafuné”, por exemplo, pode ser descrito de modo relativamente objetivo como uma carícia feita com a ponta dos dedos no couro cabeludo. Em outro idioma, é possível explicar o gesto. O que não se instala automaticamente, quando se escolhe um equivalente aproximado, é o recorte de intimidade e de cotidiano que costuma acompanhar a palavra no português brasileiro.
Com “saudade”, o problema aparece por um caminho mais abstrato. Há palavras em vários idiomas para falta, nostalgia, desejo e anseio. Ainda assim, “saudade” é usada com um espectro muito específico, que pode incluir falta, afeto, memória, tempo e uma tonalidade emocional que vai do leve ao doloroso. Um equivalente curto pode funcionar em certas frases e falhar em outras ao deslocar o foco: ora para o passado, ora para o desejo, ora para a falta concreta. Em textos de maior precisão, “saudade” costuma exigir reforço contextual para manter o mesmo efeito.
Outro grupo de palavras brasileiras resiste à tradução direta porque condensa práticas sociais. “Jeitinho”, em muitos usos, envolve a relação entre regra e convivência, entre solução prática e negociação social. A palavra pode aparecer como elogio de criatividade ou como crítica de transgressão, e a escolha de equivalente em outro idioma depende de qual sentido está ativo na frase.
“Malandragem” segue lógica parecida: pode indicar astúcia, sobrevivência, charme, crítica social ou oportunismo, conforme o cenário. Um equivalente curto tende a reduzir a palavra à ideia de trapaça, perdendo nuances e ambiguidade. “Gambiarra” também pede mais do que um sinônimo. Além de nomear um improviso técnico, o termo costuma descrever uma cultura de solução prática, com gradações que vão do engenhoso ao precário. Em tradução, a escolha mais fiel frequentemente é descritiva e depende do julgamento que a própria frase embute.
Para evitar exagero, o uso rigoroso do termo “intraduzível” pode ser amarrado a critérios observáveis. O primeiro é a ausência de equivalência um-por-um: a língua de chegada não oferece um termo único que cubra, sozinho, o mesmo conjunto de sentidos. O segundo é a dependência de contexto: a palavra muda de peso conforme tom, ironia, intimidade e situação social. O terceiro é o componente cultural: parte do significado está na prática local, não apenas no conceito abstrato. O quarto é o efeito: a palavra não apenas informa, como também cria clima, registro e identidade, e isso pode se perder quando se troca por um termo genérico.
Esses critérios ajudam a ler com cautela a “tradução do Google”. A busca entrega uma resposta rápida. O trabalho de linguagem avalia se aquela escolha sustenta o sentido quando a palavra circula em frases reais.
A seguir, a lista reúne termos do português brasileiro que, em muitos contextos, pedem explicação para preservar sentido, tom e uso social quando passam para outro idioma. A lista completa aparece logo abaixo, com o significado de cada palavra.
Saudade — falta + afeto + memória + tempo
Cafuné — carinho íntimo com os dedos no cabelo
Aconchego — sensação de abrigo emocional/físico
Chamego — afeto manhoso e contínuo
Dengo — mimo/manha carinhosa
Xodó — alguém/algo querido com valor afetivo
Carinho — afeto cotidiano, contínuo
Querer-bem — gostar com ternura (não é “love”)
Amolação — implicar/pegar no pé com tom afetivo
Grude — apego físico/emocional “colado”
Ginga — corpo + improviso + inteligência social
Jeitinho — solução social criativa fora da norma
Malandragem — astúcia com charme e ambiguidade moral
Jogo de cintura — habilidade de contornar situações
Desenrolado — resolve as coisas na prática
Enrolação — adiar/escapar com conversa e contorno
Desenrascar / se desenrascar — sair do aperto com improviso
Se virar — dar conta apesar da falta de recurso
Folgado — ultrapassa limites sociais sem pudor
Metido — exibido, pretensioso (não é só “confident”)
Banzo — tristeza profunda associada a perda de origem/saudade ancestral
Aperreio — aflição com urgência e pressão
Sufoco — pressão emocional que “aperta”
Desgosto — decepção com peso afetivo
Amargura — tristeza ressentida, que fica
Desalento — perda de ânimo, de esperança
Aborrecimento — incômodo persistente (mais que “annoyance”)
Aflição — inquietação ansiosa
Nervoso (uso brasileiro) — mistura de tensão, irritação e ansiedade
Ranço (moderno) — antipatia impregnada, “pegajosa”
Frescura — exagero/manha/afetação (depende do tom)
Implicância — criticar/perseguir em detalhes (às vezes com afeto)
Zoação — provocar/brincar cutucando
Deboche — ironia com desprezo
Cara de pau — ousadia sem vergonha
Sem noção — quebra de regra social implícita
Vergonha alheia — constrangimento pelo outro
Baita — intensificador coloquial (“um baita dia”)
Sem gracice — sem charme, sem humor, sem sal
Puxar saco — bajular por interesse (não é só “praise”)
Quebra-galho — solução provisória que funciona
Gambiarra — improviso técnico criativo (com “engenho”)
Perrengue — dificuldade vivida na prática, com história
Corre — luta diária/rotina de sobrevivência
Trampo — trabalho com peso de vida real
Rolê — passeio/encontro sem objetivo fixo (clima importa)
Fuzuê — confusão animada
Zanzar — andar sem rumo definido
Bagunça — desordem tolerável
Baderna — bagunça que já virou problema
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