O realismo mágico não é apenas um estilo literário ou estético, mas uma lente pela qual o cotidiano se revela em sua dimensão mais insólita. Trata-se de uma fusão entre o banal e o extraordinário, em que a lógica da realidade não se desfaz, mas é expandida para incluir o improvável como parte natural da vida. No cinema, essa tradição ganha corpo em histórias que recusam separar o terreno do espiritual, o concreto do onírico, dando ao espectador a sensação de que a magia não acontece em outro mundo, mas nas frestas do nosso.
Na Netflix, há obras que encarnam esse espírito com profundidade, seja inspiradas diretamente nos clássicos da literatura latino-americana, seja evocando essa estética em contextos inesperados. Esses filmes revelam personagens comuns que, ao se depararem com fenômenos extraordinários, não se espantam: ao contrário, aceitam-nos como parte de uma ordem secreta e ancestral. Esse equilíbrio entre sonho e realidade amplia a compreensão de identidade, memória e destino coletivo.
Mais do que narrativas fantásticas, essas obras representam a herança cultural de povos que aprenderam a enxergar o real através do improvável. Ao assistir a essas histórias, o espectador é conduzido por atmosferas que oscilam entre a dureza da vida e a leveza do impossível. O realismo mágico, aqui, não é mero artifício estilístico, mas uma forma de pensar a existência: como se toda dor, toda luta e toda esperança só pudessem ser plenamente compreendidas quando atravessadas por uma centelha de assombro.
Pedro Páramo (2024), Rodrigo Prieto
Um jovem viaja até um vilarejo para cumprir a promessa feita à mãe moribunda: encontrar o pai que nunca conheceu. Ao chegar, descobre uma cidade estranhamente vazia, habitada por ecos e presenças que parecem pertencer tanto ao mundo dos vivos quanto ao dos mortos. A busca se transforma em uma travessia assombrada pela memória coletiva, onde as vozes sussurram culpas e segredos de um passado inapagável. A narrativa se constrói como um espelho quebrado, em que cada fragmento revela não apenas a história de um homem, mas o destino trágico de um povo inteiro.
O Homem Sem Gravidade (2019), Marco Bonfanti
Um menino nasce com a habilidade de flutuar, incapaz de se manter preso ao chão. Para protegê-lo, a família o isola, tentando esconder sua condição do mundo. Já adulto, ele decide se expor, assumindo sua diferença como espetáculo e, ao mesmo tempo, como fardo. Entre o desejo de ser aceito e a necessidade de liberdade, sua trajetória alterna ternura e estranhamento. A narrativa transforma o impossível em metáfora da solidão, revelando que a verdadeira gravidade não é física, mas emocional. No equilíbrio entre maravilha e melancolia, o filme traduz a essência do realismo mágico em chave contemporânea.
Lazzaro Felice (2018), Alice Rohrwacher
Um jovem camponês de coração puro vive em uma comunidade rural isolada, onde os habitantes são explorados por uma marquesa que mantém o tempo parado no atraso e na servidão. Ingênuo e bondoso, ele se torna objeto de amizade e de abuso, até que um acontecimento inexplicável o transporta para outro tempo, sem perder a inocência que o define. Entre realismo social e magia implícita, a trajetória revela a dureza das injustiças e a beleza da pureza, numa parábola sobre fé, bondade e resiliência. O extraordinário não rompe a narrativa: ele se dissolve no curso natural da vida.
Birdman (2014), Alejandro G. Iñárritu
Um ator em decadência, conhecido por interpretar um super-herói no passado, tenta reinventar sua carreira montando uma peça de teatro. Enquanto enfrenta inseguranças, críticas e conflitos familiares, é atormentado pela voz interior de sua antiga persona, que assume proporções quase sobrenaturais. A fronteira entre realidade e alucinação se dissolve em corredores claustrofóbicos e voos improváveis, refletindo a batalha entre ego, arte e sentido de existência. O espetáculo da vida e o espetáculo da ficção tornam-se indissociáveis, transformando cada cena em um mergulho na vertigem do realismo mágico urbano.
Ninguém Escreve ao Coronel (1999), Arturo Ripstein
Um velho coronel aguarda, há anos, a chegada de uma pensão militar que nunca vem. Vive com a esposa enferma, sustentando-se precariamente e apostando todas as esperanças em um galo de briga que simboliza mais que sustento: é o último resquício de dignidade. A rotina marcada pela espera se mistura à aura de silêncio e frustração, onde cada gesto cotidiano carrega a sombra do fracasso e a persistência da fé. Entre a miséria material e a resistência espiritual, a história desenha um retrato de sobrevivência impregnado de lirismo, em que o impossível não rompe a realidade, mas se entranha nela.
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