É tanto filme que chega semanalmente aos streamings, que é difícil saber o que realmente vale a pena. Por trás dos sucessos comerciais e dos mais falados das redes sociais, algumas obras são marcadas pela recepção quase unânime da crítica. A Revista Bula pegou cinco filmes na Netflix que possuem avaliação superior a 90% no Rotten Tomatoes e são exemplos do cinema em sua forma mais autêntica: potente, provocador e emocionalmente impactante.
Essas obras combinam o domínio técnico, profundidade temática e atuações memoráveis, reafirmando que o cinema, quando guiado por visão e propósito, é muito mais que um simples entretenimento, mas uma experiência transformadora. Esses títulos refletem as angústias, desejos e contradições que definem a existência humana.
Esses filmes abordam a obsessão pela perfeição e o confinamento psicológico até as dores da perda, o peso da responsabilidade e a violência social. Todos possuem coragem de expor feridas e transformar o incômodo em arte. Há nelas um senso de autoria que as torna inconfundíveis: o horror estilizado como metáfora da repressão, o drama urbano como denúncia da desigualdade, o épico científico como tragédia moral. Filmes com uma sofisticação rara no circuito comercial.
Dias Perfeitos (2023), Wim Wenders
Um homem solitário leva uma vida metódica em Tóquio, limpando banheiros públicos com cuidado quase ritualístico. Entre o silêncio, a música e os encontros casuais, ele encontra beleza nas pequenas rotinas e na simplicidade do cotidiano. O que poderia parecer monotonia revela-se como uma jornada espiritual silenciosa — um lembrete de que a plenitude, às vezes, mora na repetição e no olhar atento ao mundo. A narrativa é um poema visual sobre tempo, serenidade e a dignidade contida nas tarefas mais humildes.
Oppenheimer (2023), Christopher Nolan
Um físico brilhante é convocado para liderar o projeto que mudaria o curso da história: a criação da bomba atômica. À medida que sua genialidade científica o eleva ao status de herói nacional, sua consciência moral começa a ruir diante das consequências de sua invenção. O filme retrata a mente de um homem dividido entre o dever e a culpa, entre a glória e a destruição. Em meio à grandiosidade técnica e narrativa, a trama revela que o verdadeiro conflito não é político ou militar, mas profundamente humano — o fardo de criar algo impossível de controlar.
Pearl (2022), Ti West
Em uma fazenda isolada, uma jovem sonha com a vida glamourosa que vê nas telas do cinema, mas é sufocada pela rigidez da mãe e pela rotina opressora. À medida que a frustração cresce, o desejo por liberdade se mistura à violência latente, e a fantasia de sucesso se transforma em delírio. A protagonista tenta escapar da mediocridade rural por qualquer meio, mesmo que isso signifique destruir tudo ao redor. O filme traça um retrato sombrio da repressão feminina e da obsessão pela fama, mostrando como a inocência pode se distorcer até o horror.
Um Limite Entre Nós (2016), Denzel Washington
Um ex-jogador de beisebol frustrado tenta sustentar sua família nos subúrbios de Pittsburgh enquanto lida com o peso das oportunidades perdidas e das decisões amargas do passado. Sua rigidez como pai e marido é o reflexo de uma vida marcada pela exclusão e pelo ressentimento. Quando um de seus filhos decide trilhar outro caminho, o conflito entre gerações revela o abismo entre amor e orgulho. A história se desenrola como um poderoso drama sobre masculinidade, perdão e a dificuldade de quebrar os ciclos de dor herdados.
Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles e Kátia Lund
Em uma favela carioca dominada pela violência e pela desigualdade, um garoto cresce tentando sobreviver ao caos e sonhando em ser fotógrafo. Ao redor dele, meninos se tornam assassinos, gangues disputam territórios e a infância é engolida pelo crime. A câmera acompanha o nascimento e a ruína de personagens que buscam poder, liberdade ou apenas dignidade, compondo um retrato implacável da marginalização urbana. O filme é, ao mesmo tempo, denúncia social e poesia visual — uma narrativa explosiva sobre destino e sobrevivência.