Povos diaspóricos viveram na corda bamba ao longo da história. Sempre obrigados a se equilibrar entre quedas iminentes e movimentos precisos, realizaram um exercício contínuo de malabarismo no tempo e no espaço. O livro “Circenses” (Atlas Books, 140 páginas) reúne histórias comoventes, divertidas e reflexivas sobre circos e artistas que alcançaram notoriedade, encantaram plateias e, ainda assim, foram apagados e perseguidos pelas engrenagens do preconceito, do nazismo e do olhar odioso do outro. Entre mágicas, inventividades e quedas, o Circenses mostra artistas não apenas os judeus, mas grupos condenados a se equilibrar, incessantemente, sobre o fio instável do destino.
Durante a Segunda Guerra, a ficção ousou meter o dedo na realidade. E venceu! Semanas após o desembarque aliado na Normandia, em junho de 1944, uma tropa improvável chegou ao front armada não de rifles, mas de imaginação e inteligência: artistas, designers, engenheiros de som, atores e publicitários formaram o que ficaria conhecido como o Exército Fantasma. Jovens, entre eles Bernard Bluestein e Seymour Nussenbaum, queriam lutar contra o nazismo sem matar nem morrer e por isso participaram da maior encenação bélica do século 20. Tanques, caminhões e aviões de borracha eram inflados à noite; rádios transmitiam conversas falsas; caixas de som reproduziam tiros, marchas e xingamentos cuidadosamente coreografados. Tudo para convencer os alemães de que um exército colossal se aproximava. A encenação ainda tinha uma sofisticação teatral: falsos oficiais circularam por cidades, plantando rumores e desinformação diante de espiões inimigos. O ápice veio em março de 1945, quando o Exército Fantasma simulou uma força de quarenta mil homens pronta para atravessar o rio Reno, levando os nazistas ao desespero e à retirada sob fogo contra um inimigo inexistente. Relatórios militares estimam que essa ilusão salvou entre quinze e trinta mil vidas. Sim! A ficção pode interferir na realidade e redesenhar a própria história.
Nos circos sangrentos de Roma, onde o horror era espetáculo e a morte divertimento público, um gladiador improvável atravessou a história pela força e pela transformação radical do destino: Rabi Shimon ben Lakish, o Resh Lakish. Nascido no século 3, em Tiberíades, educado na Torá e mergulhado nos segredos do misticismo judaico, ele viveu o cerco romano que empurrava judeus à marginalidade e se tornou um dos maiores gladiadores de todos os tempos. Porém, cansado de matar e de ser idolatrado por quem o desprezava, fugiu para o deserto, onde virou ladrão de caravanas. Até que o acaso o levou às margens do rio Jordão, onde encontrou Rabi Yochanan, um sábio célebre por sua beleza. Daquele encontro inesperado nasceu amor, admiração e estudo compartilhado: Yochanan viu na força de Resh um chamado para a Torá; Resh encontrou em Yochanan o sentido que faltava à sua fúria. Mestre e discípulo tornaram-se iguais, duas autoridades luminosas do Talmud, até que uma discussão banal, ferida por ego, orgulho e memória do passado, os separou. Resh adoeceu de remorso e morreu; Yochanan, consumido pela culpa, perdeu a razão e a vida. Assim, amor e morte selaram o destino de dois dos mais sábios da história judaica. Seus ensinamentos ainda ecoam nas páginas do Talmud e na fé de seus leitores.
Antes da Segunda Guerra, os Ovitz viviam numa comunidade da Romênia e carregavam uma singularidade que os tornaria célebres e vulneráveis: eram a maior família judaica conhecida afetada pelo nanismo. Sete dos dez irmãos herdaram a condição e, com ela, transformaram diferença em espetáculo, formando a Trupe Lilliput. Cantavam em iídiche, húngaro, romeno, russo e alemão, tocavam violino, faziam piruetas e zombavam de si mesmos com a ironia típica do humor judaico, arrancando risos e lágrimas por onde passavam. Com as leis antijudaicas impostas em 1940, precisaram se esconder atrás de disfarces e truques circenses para sobreviver, até serem denunciados e deportados para Auschwitz-Birkenau em 1944. Os Ovitz chamaram a atenção de Josef Mengele, que os submeteu a experimentos cruéis e degradantes, culminando num grotesco “show” para a SS travestido de aula sobre eugenia. Contra todas as probabilidades, sobreviveram até a chegada do Exército Vermelho, caminharam por meses de volta à terra natal, encontraram apenas saque e rejeição, e acabaram seguindo o destino de tantos judeus diaspóricos até Israel, onde o riso ferido, mas resistente, voltou ao picadeiro. A Trupe se aposentou em 1955 e Perla Ovitz, a última sobrevivente da família, resumiu o paradoxo com lucidez devastadora: “foi justamente essa “condição” que nos salvou da morte que levou milhões”.
Quem é o maior mágico de todos os tempos? Talvez aquele que, segundo antigas narrativas, criou o céu e a terra, separou luz e trevas, abriu mares, fez chover maná e falou do alto de uma montanha para uma plateia dividida entre crentes e céticos? Não por acaso, quando os humanos se aventuram na magia, parecem repetir esse gesto inaugural: desafiar o impossível, dobrar o tempo, enganar o espaço e transformar o mundo num picadeiro. Em 1928, o jornal iídiche Forverts estampava sem pudor: “Os principais mágicos americanos são judeus”. E ali estavam dois nomes destinados à imortalidade. Harry Houdini, nascido Erik Weisz em Budapeste, filho de um rabino e herdeiro das histórias de diáspora contadas pela avó, que transformou a arte de escapar em metáfora de sobrevivência; e David Copperfield, ou David Seth Kotkin, filho e neto de judeus errantes, que levou a mágica ao limite ao fazer sumir a Estátua da Liberdade, atravessar a Muralha da China, levitar sobre abismos e voar diante do público. Para Copperfield e Houdini, a verdadeira magia judaica sempre foi a mesma: cair, levantar, adaptar-se e seguir adiante, transformando perseguições em aplausos, perdas em reinvenção e a dura realidade em assombro. A mágica, afinal, é essa arte ancestral de fazer o sonho sobreviver quando tudo conspira para que desapareça.
A história de Chaplin ilustra a de judeus e povos diaspóricos. Não se sabe de onde sua família veio – uns historiadores dizem que escaparam de um pogrom na antiga União Soviética, outros dizem que eram ciganos que chegaram à Inglaterra e há ainda os que acreditam que ele nasceu no subúrbio de Walworth. O fato é que a família era extremamente pobre e que ele atingiu o estrelato. Durante quase toda sua vida, Chaplin foi considerado judeu tanto pelos antissemitas quanto pelos próprios judeus. Até chegaram a especular que seu nome verdadeiro seria Israel Thornstein. Ele sempre relutou em falar sobre o assunto — se revelasse ser judeu, poderia sofrer preconceitos, se negasse, seria considerado um ato antijudaico. Porém, já no final da sua vida, revelou que não tinha a “honra de ser judeu”. Esse tema de criticar o imaginário vigente e a visão do outro em relação ao judeu, visto sempre como um “pária”, foi mote do filme “O Vagabundo”. De forma corajosa e inovadora, Chaplin satirizou a ideia de alguém perseguido pelas autoridades, desenraizado, exilado e forçado a sair do emprego. Chaplin ainda teve a ousadia de representar a figura ridícula de Hitler e toda a Alemanha nazista. O humor, de fato, serve para enfrentar e afrontar tanto a violência quanto a barbárie. Em “O Grande Ditador”, de 1940, Chaplin interpretou o líder fascista, Adenoid Henkel, e também um barbeiro judeu. Foi mais um ato de coragem artística e política – além de uma bela demonstração de solidariedade, especialmente considerando que a América ainda não havia entrado na guerra quando ele começou a gravar o filme.
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