O cinema, como a arte em geral, se aproxima bastante da filosofia. Se em livros e tratados, a vida é dissecada em conceitos e teses, na tela ela aparece de forma mais imediata e realista: cheia de contradições, incertezas e momentos inexplicáveis. Isso não quer dizer que o cinema ofereça respostas que você não vai achar nos livros, mas ele é capaz de abrir janelas de reflexão capazes de iluminar nossas próprias existências.
A Revista Bula selecionou títulos, na Netflix, que silenciosamente oferecem lições existenciais mais potentes do que longos textos teóricos. Essas narrativas dissertam sobre juventude e envelhecimento, nossa relação com o tempo, a importância dos afetos e a delicadeza dos vínculos humanos e da importância de reavaliar a própria trajetória. Esses filmes parecem simples na superfície, mas guardam dentro de si grande impacto. Como se pudessem nos ensinar a olhar para dentro de nós com mais coragem e honestidade.
Selecionamos quatro títulos que não apenas contam histórias, mas unem emoção e reflexão sem cair em discursos abstratos demais ou artificiais. Esses filmes nos convidam a pensar sobre quem somos e para onde estamos indo, sem perder de vista a beleza do cotidiano. Um cinema com sensibilidade rara e que pode ensinar tanto quanto a própria filosofia.
Um Lindo Dia na Vizinhança (2019), Marielle Heller
Um jornalista cético recebe a tarefa de entrevistar um apresentador infantil conhecido por sua bondade quase inabalável. A princípio, ele encara o trabalho como apenas mais uma pauta, mas a convivência o confronta com feridas profundas de sua vida pessoal. O personagem principal, marcado por mágoas familiares e pela dificuldade em lidar com emoções, se vê forçado a encarar suas fragilidades ao lado de alguém que, com gestos simples, consegue enxergar além das barreiras. O encontro entre ceticismo e compaixão se torna um catalisador de mudanças, mostrando que a vida, por vezes, pede mais do que respostas: exige escuta, empatia e aceitação do que somos.
Viver Duas Vezes (2019), Maria Ripoll
Um professor aposentado começa a enfrentar os primeiros sinais de Alzheimer. Orgulhoso e racional, ele tenta esconder sua fragilidade, mas sua neta, cheia de ternura e vitalidade, o arrasta para uma aventura que transforma ambos. Juntos, eles decidem ir atrás de um amor do passado, numa jornada que mistura humor, afeto e melancolia. À medida que a memória do protagonista se desfaz, ele é obrigado a reconhecer que a vida não pode ser controlada pela lógica, mas pode ser vivida intensamente no presente. É no vínculo com a família e nos pequenos instantes de afeto que ele encontra a resposta para a inevitabilidade da finitude.
Não Olhe Para Trás (2015), Dan Fogelman
Um astro do rock, já distante dos dias de glória, decide encarar uma nova fase ao receber um presente inesperado de um fã: uma carta escrita por John Lennon décadas atrás. Esse gesto simbólico desencadeia nele uma reflexão sobre escolhas, arrependimentos e a forma como viveu a fama. Acostumado a um estilo de vida marcado pelo excesso e pela superficialidade, ele passa a buscar novas conexões, incluindo um reencontro com o filho de quem havia se afastado. Nesse processo, descobre que a verdadeira grandeza não está nos palcos ou nos aplausos, mas na capacidade de se reconectar com o que é essencial, mesmo quando o tempo parece perdido.
Enquanto Somos Jovens (2014), Noah Baumbach
Um casal na casa dos quarenta começa a sentir o peso das escolhas que ficaram pelo caminho. Enquanto os amigos mergulham nas responsabilidades da maternidade e da vida estável, eles tentam se agarrar a uma juventude que parece escapar pelas mãos. O encontro com um casal mais jovem, cheio de energia, ambições e modos de viver diferentes, acende neles tanto fascínio quanto insegurança. Essa convivência revela contrastes entre gerações, questiona os limites da autenticidade e expõe a dificuldade de aceitar o tempo como ele é. No fundo, trata-se de uma busca por sentido, pelo entendimento de que envelhecer não significa perder intensidade, mas aprender a vivê-la de outras formas.